Carregar esperança

Carregar esperança

A vida não é linear e constante. Por momentos e períodos de tempo, maiores ou menores, somos confrontados com desafios que nos oferecem caminhos vários. A opção do que fazemos, depois, com eles é nossa. Guiados – ou não – por uma força interior, tomamos o caminho que, na altura, nos parece o mais apropriado e seguimos…

Fernando Pinho tinha 9 anos quando os pais se divorciaram. No dia do 27º aniversário recebeu uma chamada do pai. “Pensei, de imediato, que era para me desejar parabéns, mas do outro lado da linha, ele estava a chorar”, explica. O irmão, com apenas 11 anos, era diagnosticado com uma forma agressiva de leucemia. Seguiram-se tratamentos – que implicavam uma viagem, todas as semanas, de 80 km a caminho do hospital -, uma campanha de angariação de fundos – coordenada por Fernando – para a angariação de possíveis dadores de medula óssea e a participação em programas de televisão com apelos vários. Passaram três anos. “Nunca encontrámos um dador compatível”, refere, acrescentando: “Quando a esperança já era pouca, o André reagiu ao tratamento.”

Servindo-se de uma vontade, que lhe era intrínseca, de ultrapassar as dificuldades que a vida então lhe colocava, Fernando decidiu não ceder ao medo e, antes, ajudar a combater outros medos, outras dificuldades, outras impossibilidades.

“Um dia, olhei para a Jane e disse “Vou criar uma organização para ajudar crianças com cancro”. E assim fez. A Please Take Me There nasceu em 2014. Caraterizada como uma organização não-governamental que leva crianças de famílias carenciadas com cancro a receber tratamento, já ajudou mais de 5000 crianças na Europa, Asia e África. 

Fernando Pinho

O fundador, em entrevista.

Como nasceu a organização Take Me There e porquê? Como foi o seu percurso profissional? O irmão do Fernando tinha leucemia… Como foi viver esse diagnóstico? Nunca se está preparado…?

Para responder a estas questões, preciso de partilhar um pouco do meu percurso desde criança. 

Atualmente, vivo em Cambridge, Inglaterra, mas cresci em Portugal. O meu pai era vendedor de carros, a minha mãe trabalhava num escritório e eu queria ser piloto. Juntamente com a minha irmã, éramos uma família feliz, até deixarmos de o ser. Os meus pais divorciaram-se quando eu tinha 9 anos. Nos anos seguintes, tornei-me introvertido, os estudos descarrilaram e vivia um dia de cada vez, sem planos para o futuro. Aos 17 anos, saí de casa e fui trabalhar para o call center da antiga Telecel. 

Dez anos depois, no dia do meu vigésimo sétimo aniversário, recebi uma chamada do meu pai. Pensei, de imediato, que era para me desejar parabéns, mas do outro lado da linha, ele estava a chorar. O meu irmão André, com 11 anos, tinha sido diagnosticado com uma forma agressiva de leucemia. Os médicos disseram-nos que muito provavelmente, para sobreviver, o meu irmão precisaria de uma doação de medula óssea. 

Durante os três anos seguintes, o meu irmão, a minha madastra e o meu pai viajaram 80 km, todas as semanas, para o hospital. Ao mesmo tempo, eu coordenei uma campanha para angariar dadores de medula óssea e participei em programas de televisão para fazer apelos. Nunca encontrámos um doador compatível. Quando a esperança já era pouca, o André reagiu ao tratamento. 

Depois do tratamento, e com 30 anos, senti que a minha vida não tinha um propósito e que estava a precisar de uma grande mudança. Como sempre fui apaixonado por música e teatro, comecei a frequentar aulas de inglês e fui aceite no curso de produção de teatro na Guildhall School of Music and Drama, em Londres. Depois do curso trabalhei na Royal Opera House, depois no Royal Albert Hall e tornei-me diretor artístico da Casa da Criatividade em Sao Joao da Madeira, cidade onde nasci. 

Foi por volta dessa altura que conheci a Jane, a mulher dos meus sonhos. Pouco tempo depois, nascia a nossa primeira filha Amélia. Por mais que eu adorasse a minha carreira artística, queria ser um pai presente. Queria ser testemunha dos primeiros passos, das primeiras palavras. Queria estar lá de manhã, para preparar o pequeno-almoço e ler uma história, na hora de dormir. Foi nessa altura que decidi pôr um fim à minha carreira, que, de outra forma, me teria roubado muitas noites e dias em família. Acredito que muitos pais querem fazer os seus filhos orgulhosos. Ao mesmo tempo, queria fazer algo que inspirasse a Amélia a crescer de forma generosa, com um coração bondoso e consciente dos problemas sociais no mundo. Um dia acordei, olhei para a Jane e disse “Vou criar uma organização para ajudar crianças com cancro”. Não fazia ideia de como começar, mas sabia que tinha de o fazer. Estávamos em 2014 e, desde então, já ajudamos mais de 5,000 crianças na Europa, Asia e Africa. 


Li numa entrevista que deu que viveu durante sete dias numa avioneta para conseguir angariar mais dinheiro para o seu projeto?

Verdade, em 2019. Vivi 7 dias dentro do avião e só podia sair 15 minutos por dia para ir à ao WC. O avião não tinha aquecimento e mal conseguia esticar as pernas. O evento foi transmitido via Facebook. Posso dizer quer, na altura, ficou aquém da expectativa. Mas, uma semana depois, recebi uma chamada da Facebook em São Francisco – “Hey Fernando, we were watching you! We want you to come over and talk to 50 journalists about what you did” [Hey, Fernando, estamos a ver-te! Queremos ir aí e contar a 50 jornalistas o que estás a fazer.] Esta foi a primeira de duas viagens aos EUA para promover o nosso trabalho.

Mas, anos antes, fiz algo que considero bem mais difícil. Em 2016, precisámos de fundos para criar os primeiros projetos. Fiz uma pequena mala e fui viver, durante um mês, em terminais de aeroporto. A ideia era chamar a atenção para o problema da falta de acesso a tratamento oncológico. A minha amiga e atriz Sofia Escobar decidiu passar um dia comigo no aeroporto de Lisboa. Depois da participação dela, as coisas ganharam outra dimensão. Entre 2016 e 2018, vivemos 63 dias no aeroporto de Lisboa. Mais de cinquenta figuras públicas incluindo atores, futebolistas e músicos, participaram nas campanhas. Os atores Diogo Infante e Joaquim de Almeida deram voz aos nossos vídeos. 


As pessoas são solidárias, regra geral? Ou estamos ainda demasiado desligados uns dos outros? Devíamos ser todos mais solidários?

Sim. Eu diria que todos nós somos solidários, sem exceção. Todos temos uma causa que nos toca, que nos é mais próxima: alguém que foi afetado por um cancro, por demência, por qualquer forma de abuso… Contudo, não é realista esperar que todas as pessoas sejam solidárias com todas as causas. É por isso importante comunicarmos com aqueles que viveram de perto o problema que estamos a tentar resolver. Neste sentido, podemos dizer que sim, não estamos todos ligados uns aos outros, mas não seria realista esperar essa ligação. 


O meu trabalho tem recebido um apoio incrível dos portugueses. A totalidade do meu trabalho no Myanmar é subsidiada por centenas de donativos generosos que nos chegam de Portugal. Acho, no entanto, que em Portugal ainda há um grande caminho para se fazer no desenvolvimento na confiança entre organizações e o público. Existe um profundo desconhecimento sobre a forma como as organizações solidárias trabalham e a falta de legislação promove a desconfiança. 


A pandemia veio alterar isso?

Só no Reino Unido, existem cerca de 180000 organizações sem fins lucrativos. Quase todas, perderam cerca de 40% a 50% dos fundos. Os programas foram cancelados e milhares de pessoas vulneráveis foram afetadas. O que acontece é que a pandemia afetou, literalmente, todos os países do mundo. As pessoas focaram-se mais nos problemas do seu país e deixaram de apoiar causas internacionais. Vão ser precisos muitos anos para que a situação volte ao que era. 


O que faz a sua organização, em termos concretos?

A Please Take Me There ajuda crianças com cancro a terem acesso a tratamento oncológico. Por exemplo, no Myanmar, um país com mais de 50 milhões de habitantes, existe apenas um hospital pediátrico com área de oncologia. Em média, uma criança precisa de viajar 12 horas e a grande maioria das famílias não conseguem pagar as viagens. O nosso trabalho assegura que, todos os meses, mais de 60 famílias podem oferecer tratamento aos seus filhos. Para além do Myanmar, desenvolvemos um programa no Gana e agora no Reino Unido, onde estamos a criar um serviço aéreo. 


Quando começou a transportar estas crianças com cancro sentiu que estava, de certa forma, a cumprir a sua missão? Sente que é essa a sua ‘missão de vida’?

Para além da minha família, não há nada que me faça mais feliz e mais realizado do que ajudar crianças com cancro. Esta é uma missão sem fim. Cada família, cada viagem, é uma oportunidade para ajudar a mudar o mundo daquela criança. Estou convicto de que, quando o meu momento chegar e olhar para a minha vida, me vou sentir feliz e dizer – “What an amazing life I had!” [Que vida extraordinária eu tive!]

Como se sentiu o seu irmão, ao ver que estava a conseguir ajudar crianças?

Muito orgulhoso! Lembro-me que, quando estive a viver no Aeroporto de Lisboa, ele decidiu acompanhar-me e passar uns dias comigo. O cancro não afeta apenas quem é diagnosticado. E não afeta pessoas apenas de uma forma negativa. Devo a ele a vida e missão que hoje tenho. 

Hoje faz aquilo que o deixa feliz? É feliz a ajudar os outros?

Sem dúvida. Depois de um início de vida atribulado, confesso que precisei de muitos anos para recuperar a minha saúde mental. A minha esposa Jane e as minhas duas filhas são muito mais do que alguma vez imaginei possível. O teatro foi a minha terapia. Mas ajudar tornou-se a minha missão de vida. 

O que deseja, num futuro próximo?

Neste momento, estou muito preocupado com a situação no Myanmar. O golpe de estado matou mais de 800 pessoas. A nossa equipa está a trabalhar em condições de segurança mínimas, os hospitais estiveram fechados durante meses e milhares de crianças com cancro não tiveram acesso a tratamento. Não sei quando vou poder voltar. 

Outro desejo, no qual estou agora muito focado, é oferecer transporte gratuito a todas as crianças com cancro no Reino Unido, até ao final da década. Em média, uma criança precisa de viajar 90km para aceder a tratamento. Muitas crianças viajam de um ponto do país para o outro, para poderem aceder a tratamentos experimentais. Para resolver este problema, vamos criar um Serviço de Transporte exclusivo para crianças com cancro e que irá incluir transporte aéreo e terrestre. 

Saiba mais:

https://vimeo.com/182194542

https://vimeo.com/301352584

https://vimeo.com/266899876/539176aa3b 

https://vimeo.com/209554741 

Descomplicar para (realmente) ajudar

Descomplicar para (realmente) ajudar

É natural do Porto. Músico, fotógrafo e psicólogo humanitário, integra o projeto Médicos Sem Fonteiras, em várias missões internacionais.

Não lhe interessa a capa de herói ou a ideia de um notável altruísmo. Preocupa-o mais a mudança de paradigma. A mensagem é clara: é preciso “salvar vidas e aliviar o sofrimento de pessoas, em todo o mundo, em situação de crise humanitária”, diz. Tornar a ajuda algo – realmente – possível, para todos, é um passo importante no alcance desse objetivo. “Temos de tentar envolver toda a gente e não apenas os ‘humanitários’ e os ‘ativistas’. Quanto mais gente estiver interessada e envolvida, mais hipóteses de as coisas mudarem e da realidade das pessoas que sofrem ser alterada”, acrescenta. Afinal, ajudar é simples: “mudar o mundo não sei se é difícil, salvar vidas e aliviar sofrimento é perfeitamente possível, para todos”, explica.

Descomplicar a ideia das questões humanitárias e envolvê-la, antes, numa esfera de normalidade, para que assim possam chegar a quem delas realmente precisa, é, portanto, a verdadeira missão que abraça. “Eu acredito que precisamos de todos: desde aquela ativista que dá 40h por semana pela causa, à trabalhadora a full time numa ONG, passando pelo jornalista que chateia sempre o editor para falar sobre estes assuntos e pela mãe solteira que, entre o yoga, o ir buscar os filhos à escola e o jantar, consegue partilhar um post e escrever um comentário a pressionar o Ministro dos Negócios Estrangeiros”, conclui.

Em Dezembro de 2016 e em janeiro de 2020, esteve a trabalhar como psicólogo no campo de refugiados de Mória, na ilha grega de Lesbos, um campo em território da União Europeia onde, todos os anos, se registam mortes provocadas pelo frio e onde a capacidade máxima de 3000 pessoas é largamente ultrapassado, registando-se um total de 20000! Atendia menores esfaqueados, todas as noites.

A Giné-Bissau e Caracas, na Venezuela, foram dois dos outros lugares que visitou. O primeiro, nos cuidados intensivos pediátricos do hospital da capital, com três crianças a morrerem à sua frente, todos os dias. O segundo, em setembro de 2018, onde entrevistou jornalistas torturados pelo regime.


Passou, ainda, por Moçambique, em abril de 2019, logo a seguir ao furacão Idaí, também com os Médicos sem Fronteiras, que trataram mais de 4000 casos de cólera, numa epidemia de cerca de 6000. As atividades de saúde mental atingiram mais de 15000 pessoas no distrito de Dondo (um dos mais afetados pelo desastre natural). Regressou um ano mais tarde, novamente com os Médicos sem Fronteiras, deslocando-se à província de Cabo Delgado.

De todos os lugares por onde passou, resultaram projetos artísticos que servem, ao mesmo tempo, de alerta. ‘Moria’ é o nome de um tema que compôs depois da segunda ida em missão humanitária à ilha grega de Lesbos. O vídeo, foi também captado nesta última missão, retratando as condições sub-humanas do Campo de Refugiados. Da passagem pela Guiné-Bissau, compôs, gravou e filmou um videoclip que aborda temas como a mutilação genital feminina e o tráfico de crianças, um tema utilizado pela ONU em campanhas de sensibilização. Da visita à Venezuela, resultou um documentário, ‘Venezuela, te Escucho’. Em Portugal, em resultado da tragédia dos incêndios de 2017, retratou no tema ‘Chuva e fogo’, a realidade vivida pelos sobreviventes da tragédia de Pedrogão e dos fogos de Outubro.

Com várias intervenções e projetos relacionados com missões humanitárias, onde se destaca, por exemplo, a participação na TEDx Lisboa, o ano passado, assina outros de caráter talvez mais leve, mas não menos sério. Alice é o nome de um dos últimos singles que lançou e que merece – e muito! – ser ouvido.

Raúl Manarte

Raúl Manarte em entrevista.

Porquê o voluntariado? Como surgiu este tipo de missão no seu caminho e porque sentiu esta necessidade de ajudar o próximo?

Não é voluntariado. Gosto de dizer logo isto frontalmente: sou remunerado. Sim, comecei com voluntariado com sem-abrigo e, sim, já fui duas vezes para o campo de refugiados de Mória, em regime de voluntariado. Mas a maior parte do trabalho humanitário que faço é com os Médicos sem Fronteiras e é remunerado. E porque é que gosto de ser frontal em relação a isto? Porque é algo que contribui para o meu objetivo: salvar vidas e aliviar o sofrimento de pessoas, em todo o mundo, em situação de crise humanitária. E porque é que esclarecer que ganho dinheiro com as missões contribui para isso? Por várias razões, mas uma delas é diminuir a distância entre eu e tu. Eu quero que tu te envolvas. Claro que há quem se envolva muito mais do que eu e quem tenha um contributo muito maior do que o meu. Mas há muitos que gostariam de contribuir e não sabem como. E se tiverem a ideia que eu “largo tudo” e vou para um cenário “esquecido e dramático”, “salvar vidas”, talvez se sintam desmotivados, talvez sintam muita distância entre eles e eu. Penso que a realidade é bem mais complexa mas bem mais motivadora. Deixo alguns pontos importante:

1. Quando ajudas alguém, ganhas sempre algo com isso (social, moral, psicológica ou, mesmo, fisicamente. E, como disse logo no início, financeiramente)

2. Há muitíssimas motivações e ser “voluntário para ajudar o próximo” é só uma. Outras: ganhar dinheiro, conhecer outras culturas, aprender, sentir propósito, crescer pessoalmente, crescer profissionalmente, canalizar a revolta, diminuir o sentimento de impotência, etc… As opiniões divergem muito em relação a isto mas para mim… (e aqui vamos para o número 3)

3. Não importa a tua motivação, importa o impacto que tens. Se vais contribuir positivamente para salvar vidas e aliviar sofrimento, então vai, então faz (mas avaliar este impacto não é tão simples como parece, o trabalho humanitário pode ter consequências negativas e é preciso saber procurá-las e diminui-las)

4. Sim: é possível ajudar sem sair “daqui”, sem ter muito tempo por semana, sem criar um grande compromisso – há opções de ação diversificadas para cada “tipo de vida” e para cada “perfil”.

Pode contar-me um pouco do seu percurso profissional?

O meu percurso profissional é uma fusão da psicologia e da música. Quando entrei para a faculdade de psicologia, fundámos os ‘be-dom’. Durante o curso e os primeiros anos como psicólogo, os ‘be-dom’ tocavam (e tocam) por todo o país e um pouco por todo o mundo. Por cá, ia trabalhando com HIV/SIDA, trabalhadores do sexo, ia fazendo voluntariado com sem-abrigo. Em 2016 a ‘minha’ Europa (ryanair+euro+todos falamos inglês+casa dos direitos humanos), assina um acordo com a Grécia e com a Turquia, em que, a troca dinheiro, é possível direito de admissão à UE por abuso de migrantes e refugiados, encurralando-os em campos ou deixando-os afogar no Mediterrâneo. Voluntariei-me para o campo de Mória. Entretanto, por cá, comecei a trabalhar nos cuidados de saúde primários. Por “lá”, entrei para os Médicos sem Fronteiras e, desde então, tenho tido o privilégio de trabalhar com Guineenses, Moçambicanos, Indianos, Bolivianos, Brazileiros e Venezuelanos que me ensinaram a responder à fome, à guerra, aos ataques terroristas e às epidemias.

Como nasceu o gosto pela música e pela fotografia?

O gosto pela música nasceu comigo. Pelo menos, eu não me lembro de o ver nascer, por isso, parto desse princípio… Como batucava em todas as superfícies inanimadas da casa, os meus pais adicionaram as aulas de bateria às de guitarra. A fotografia foi diferente… Foi muito mais tarde. As pessoas começaram a dizer que eu tinha jeito e decidi pedir uma câmara ao Pai Natal, antes de uma das missões.

Tem formação em psicologia. Porquê a psicologia? Sempre sentiu essa necessidade de ajudar o próximo?

Porque estava no 12º e não sabia para onde ir. Um dos meus colegas disse-me: “tens jeito para ouvir os outros”. Feito. Não sei se é bem ‘necessidade de ajudar o próximo’… é uma mistura de coisas… é a revolta, ao ver injustiça; é a necessidade de responder a essa revolta; é o prazer egoísta de ver alguém passar do ‘antes’ para o ‘depois’, num processo de intervenção psicológica; é poder estar com os outros, quando não estão no seu melhor, quando estão vulneráveis.

Já esteve em várias missões humanitárias… Lembra-se da primeira?

Perfeitamente. Campo de Mória, Dezembro de 2016. Sumário da lição aprendida: podes passar por coisas imagináveis, que eu nunca passei e, mesmo assim, podes ver os teus direitos básicos negados – e os meus estão garantidos e reluzentes. O que importa é acabar com esse sofrimento e com essas mortes e, para isso, o trabalho humanitário é insuficiente. Vais ter de pegar na palavra poeirenta e suja – ‘política’ – e perceber que o ‘eu’ passa a ‘nós’ e que ‘caridade’ passa a ‘justiça’. 

O que mais o marcou, até hoje?

Muita coisa… ver, todos, os dias crianças a serem reanimadas, sem sucesso. Ver pessoas desesperadas que conseguem ajudar os outros. Ver que o choro de quem perde um filho é igual num homem em Caracas ou numa mulher em Cabo Delgado. Ver que ‘eles’ não existem – não há esse grupo homogéneo de ‘vítimas’ ou de ‘aproveitadores’ ou ‘injustiçados’… há pessoas, umas encantadoras, outras intragáveis, mas as opções, as condições, o respeito e a voz que têm são, incomensuravelmente, diferentes e, nesse contraste, está a minha e a tua ação.

Acha que, de alguma maneira, as pessoas deviam estar mais alerta para as questões humanitárias?

Depende de como se ‘alertam’. É preciso duas coisas: esse ‘alerta’ ser valioso e eficaz (informação relevante, pessoas e não números, perspetivas e não factos) e é preciso vir acoplado de boas opções de ação. Se só me mostrares essas ‘questões humanitárias’ mas não me disseres como posso contribuir, então eu não quero ver, não sou masoquista.

Preocupamo-nos pouco com o outro?

Eu acho que não. Acho que temos comportamentos altruístas frequentes. Sei que não era esta a resposta que esperavas mas se quiseres perceber melhor porque digo isto eu tento fundamentar melhor aqui: 

https://www.youtube.com/watch?v=yDbMfMRS41Q

Quando há condições, nós ajudamos: quando sabemos o que acontece e quando temos opções de ação que consideramos eficazes.

Porque acontece isso?

Eu acho que não ajudamos mais porque, ou não sabemos o que acontece de uma forma impactante ou não temos opções de ação que consideramos eficazes. Ou seja, muitas vezes, não sabemos o que se passa nos campos de refugiados, no Mediterrâneo, no Iêmen, em Cabo Delgado, na Amazônia, no Tigré… e, quando sabemos, chega-nos na forma de números, estatística, análise política… Essa informação raramente nos chega de uma forma mais ‘profunda’, retratando a história de quem está com a pele queimada dos abusos, de morte, de indiferença e de apatia. Se a informação chegar dessa forma então a nossa empatia emocional e cognitiva tem mais hipóteses de ser ativada (ou seja, ‘preocupamo-nos’). Mas o objetivo não é preocupar. É ajudar. E, para isso, vais ter de me dar opções de ação – o que é ainda mais raro chegar até nós. Vais ter de me dizer como posso transformar essa ‘preocupação’ em contribuição e vais ter de me mostrar que pode fazer a diferença mesmo que, como é óbvio, não seja garantido ou imediato. Só assim eu vou conseguir integrar essas ações no meu dia-a-dia. Porque, se tenho trabalho, filhos, escola, yoga, amigos, ginásio e consultas, preciso de conseguir contribuir de uma forma humanitária e política que seja exequível. Temos de tentar envolver toda a gente e não apenas os ‘humanitários’ e os ‘ativistas’. Quanto mais gente estiver interessada e envolvida mais hipóteses de as coisas mudarem e da realidade das pessoas que sofrem ser alterada. Isto acontece por inúmeras vias. Uma delas, é esta: quanto mais gente interessada, mais os media ficam interessados, criando uma espiral positiva de interesse que, por exemplo, se pode traduzir em pressão internacional sobre os ‘decisores’.

Acha que esta pandemia mundial poderá mudar, de alguma forma, esse paradigma?

Não sei a que paradigma te referes… o paradigma que nos “preocupamos pouco com o outro”? Eu não vejo bem as coisas assim como tentei mostrar, nas duas respostas anteriores. Em relação à pandemia, a revisão que faço da literatura não traz uma conclusão certa: há imensos exemplos de altruísmo nas populações (como há em todas as crises humanitárias, desastres naturais e epidemias), assim como há exemplos de competição, injustiça e desigualdade. Penso que em relação à desigualdade, sim, podemos já tirar conclusões: é, talvez, o primeiro momento na História em que a desigualdade interna aumentou em, praticamente, todos os países do mundo, ao mesmo tempo (https://oxfamilibrary.openrepository.com/bitstream/handle/10546/621149/bp-the-inequality-virus-250121-en.pdf). Exemplos: enquanto o rendimento dos mais pobres pode demorar décadas a sere recuperado, as mil pessoas mais ricas do mundo demoraram 9 meses (em 2008 demoraram 5 anos) a recuperar; 200 milhões de pessoas foram adicionadas às que vivem na pobreza, enquanto os lucros (só os lucros! não falo dos rendimentos) das 10 pessoas mais ricas do mundo, em 2020, seriam suficientes para tirar estas pessoas da pobreza e ainda pagar vacinação ao planeta todo. Mais exemplos: No Brasil, há maior incidência e mortalidade nos estados com maior desigualdade ( https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-71672020001400158&script=sci_arttext) e alguns estudos dizem, ainda, que a desigualdade é um maior preditor de mortalidade do que a idade- https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,desigualdade-pesou-mais-que-faixa-etaria-nas-mortes-por-covid-no-brasil-diz-estudo,70003679379. Ou conclusão: as mulheres são afetadas, desproporcionalmente, em todo o mundo, um dos grandes fatores é que são sobre-representadas no setor do trabalho informal: um sector desprotegido, sem baixas médicas, sem teletrabalho, sem garantias, sem soluções e sem atenção. E os exemplos continuam, são muitos e muitos.

De que forma sente que faz diferença nas missões para onde vai?

Não sinto que “faça a diferença”, sinto que tento contribuir para as ‘rodas girarem’, no sentido de salvar vidas e aliviar sofrimento. Há várias maneiras de olhar para essa contribuição, aqui vão algumas: primeiro, acho que, no terreno, há uma equipa, não há um ‘eu’. Ou seja, a intervenção é feita por várias pessoas, em várias áreas. Nalguns casos, é evidente – eu vejo que salvamos vidas na clínica emergencista no campo de Moria ou nos centros de tratamento de cólera, em Moçambique, ou na pediatria intensiva na Guiné. Consigo ver, também, o impacto, menos óbvio, da intervenção em saúde mental: seja quando promovemos a psicoestimulação das crianças desnutridas, internadas, o que resulta em ganhos mais rápidos, em novos padrões de interação mãe/filho e em menos recaídas. Quando contribuímos para a ativação e mobilização comunitária – a comunidade é o melhor cuidador dela própria. Estas são as formas mais diretas. Mas as indiretas, a tal ‘espiral positiva’ é igualmente importante. Quando eu ‘vou’, sei que isso impacta muita gente que me conhece: querem saber mais, apercebem-se que podem contribuir. Também consigo ter oportunidades de passar a informação (como nesta entrevista). Também consigo alimentar esferas de ação ativista – algo absolutamente essencial, ao alcance de todos, mas ‘escondido’ atrás de ideias como ‘ativismo’, em que só se faz barulho; não é eficaz; é muito laborioso.Também podemos ‘fazer a diferença’ para o negativo. Em vez de ajudarmos, podemos prejudicar e temos de falar disso. Para se saber um pouco melhor do que falo, pode ver-se aqui: https://www.youtube.com/watch?v=ehtGLBK33qU

É difícil, mudar o mundo?

Suponho que sim, nunca tentei! [risos] Tento conseguir ‘estes’ resultados para esta campanha de ativismo, tento conseguir ‘aqueles’ objetivos numa missão humanitária. Tento passar ‘esta’ informação aos amigos, aos familiares ou nas redes. Tento fazer o que falámos acima: passar informação impactante e fornecer opções eficazes de ação. Por isso: mudar o mundo não sei se é difícil, salvar vidas e aliviar sofrimento é perfeitamente possível, para todos.

Se todos déssemos um pouco mais de nós, o mundo seria um lugar melhor?

Não sei bem o que é “dar um pouco mais de nós”. Fazer missões ou ser ativista não é auto-sacrifício. Aliás, se tivesse de escolher um pólo, nem seria o de sacrifício mas sim o de ganho. Ganhas muito com ações deste tipo. A ideia que importa passar é que tu já fazes isto. Tu já ajudas e já ajudas estranhos. Só estamos aqui a falar em expandir um pouco essa esfera, basta as coisas ‘chegaram até ti’ (o que pode implica que sejas tu a procurar) e saberes como podes ajudar.

Alguma vez sentiu frustração, vontade de desistir de tudo?

Não. Como disse acima: tem de ser exequível. Tem de ser uma maratona e não um sprint. Há semanas em que só partilho um post. Há outras em que estou em Cabo Delgado, escondido do Estado Islâmico. Há umas semanas em que não leio mais sobre os campos de refugiados. Há outras em que vou tomar café com pessoas que me abordam nas redes soaicias porque querem contribuir. Há dias em que estou numa ação ativista nas ruas do Porto. Há outros dias em que vou ao ginásio e bebo sangria. 
A palavra é: maratona. Por isso, às vezes é melhor dar 5 minutos todas as semanas do que dar 50 horas durante 5 semanas. O tempo e as formas de contribuir têm de ser variados e temos de ir variando. Eu acredito que precisamos de todos: desde aquela ativista que dá 40h por semana pela causa, à trabalhadora a full time numa ONG, passando pelo jornalista que chateia sempre o editor para falar sobre estes assuntos e a mãe solteira que, entre o yoga, o ir buscar os filhos à escola e o jantar, consegue partilhar um post e escrever um comentário a pressionar o Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Filha do mundo

Filha do mundo

Nasceu em Lisboa, mas é do mundo. Viajante por natureza, interessam-lhe as histórias e as conversas, mais do que os lugares per si. “Viajo nas histórias das vidas das pessoas. Quero realmente compreender, perceber porque fizeram o que fizeram, a origem, a motivação, o medo, a crença. Porque é que as coisas são como são?”, diz. Das conversas com o pai nascem poucas das certezas de Patrícia Assis na vida. “Entre as mil conversas que tenho e sempre tive com o meu pai ele um dia disse-me “Tu minha filha és um ser humano curioso. Não te consigo bem definir. Sempre foste curiosa, ponderada e sensível. Eu sei que gostas das palavras, mas eu ainda não sei bem quem tu és. Diria que tu és uma “wanderer” que anda nesta vida para se compreender a si própria e aos que te rodeiam.” Gostei da definição dele porque foi uma resposta tão vasta como aquilo que sinto que sou (ou não somos todos?). Sempre fui consciente da existência do meu mundo interior, da minha perceção do eu, da forma da minha identidade”, acrescenta. É na base de uma inquietação que lhe é intrínseca que percorre o mundo. “Viajo nas histórias das vidas das pessoas. Quero realmente compreender, perceber porque fizeram o que fizeram, a origem, a motivação, o medo, a crença. Porque é que as coisas são como são? E viajo o mundo!”

Licenciada em Gestão pelo ISEG, soube-lhe a pouco o rumo que tomou na universidade. “Quando entro na faculdade aos 18 anos para gestão, abre-se um mundo virado para fora. Fiz parte de quase todas as organizações da faculdade: AIESEC, Orgãos Sociais e associação de Estudante. O que é que há mais? Conhecia toda a gente e tudo que era iniciativa, lá ia eu”, diz, no site Solo Adventures. Acabou o ultimo semestre em Pequim, na China. Tentou arranjar emprego em Hong Kong, depois de terminar o curso, e não conseguiu. Voltou para Portugal.

Decorria o ano de 2011 quando, no auge da crise económica que então se sentia e sentada no café com aquela que é hoje uma das suas melhores amigas, perceberam que estava na altura de mudarem o mundo. Criaram a Sapana, uma organização que desevolve pessoas para a sua auto-sustentabilidade (prisões, bairros, desemprego, empresa) e da qual hoje é president e gestora de projeto. Um ano depois, partiu para a Holanda. A falta de trabalho não a demitia do seu sonho e agarrou-se à aclamada resiliência e não desistiu. “Ia com o dinheiro contado, portanto não me podia pôr em grandes aventuras. Prometeram-me casa 3 vezes, mas acabei por mudar de casa 7 vezes num mês! Isso foi duro. Não saber onde ia ficar e o que ia acontecer”, diz, acrescentando: “Geralmente, penso e planeio bastante as coisas e preocupo-me bastante com o futuro. Mas com a Holanda foi uma paixão diferente. No terceiro dia mudei-me para um hostel no centro de Amesterdão, onde me ofereciam dormida, em troca de limpezas e arrumação de quartos. Achei o negócio ótimo!”  Depois de alguns empregos precários, decidiu concorrer a uma cargo numa multinacional. E ficou! Primeiro, na Tommy Hilfiger, depois na Nike. “Enviei alguns curriculos via online, até surgir esta oportunidade. Fui a uma entrevista e fiquei! Na Nike passou-se o mesmo. Depois de 2 anos e meio, queria algo diferente e candidatei-me pelos sites. Mas a experiência da Nike foi outro momento altamente feliz na minha vida! Cresci imenso profissionalmente e como pessoa.”

Em 2017, decidiu deixar a Nike para viver o mundo. Pariu para a Ásia. “Eu já queria ter dado o salto há mais anos, mas não tinha coragem. Queria viver a minha identidade”, explica, acrescentando: “quando aterrei em Bangkok e tirei a mala das costas, o primeiro pensamento foi: “estava a ver pah! Já não era sem tempo!”. Estava radiante! Pensei que ia ficar apreensiva – o normal em início de viagem. Mas não. Parecia que já lá devia ter chegado anos antes. Estava em casa.” Regressou ao país em 2018. “fui pelas pessoas. Conheci mesmo muita gente local, porque, principalmente na Ásia, viajei com tenda. Ouvi muitas histórias e vi muitas formas de viver e de estar distintas. Passei por 9 organizações sociais, onde estive a trabalhar com os fundadores. Quando cheguei a North Sumatra (Indonésia), estive 5/6 semanas sem ver qualquer ocidental, porque estava exposta só à vida local, com os locais. E eles são como nós, claro, mas com regras diferentes. E essas regras desafiam as nossas regras. As suas histórias fazem-nos pensar nas nossas. As suas dores ou alegrias lembram-nos quem nós somos. E eu nunca passo pelas coisas em vão. Foi preciso afastar-me, para poder voltar”, explica.

Em 2019,  decidiu dar o ‘grito do Ipiranga’ e traçar um caminho mais pessoal. Criou um programa de coaching para impacto – Achieve2Sustain – e lançou a sua empresa social, a Ant.Element.

Patrícia Assis em entrevista.

No site Solo Adventures descreve-se como ” viajante, errante e crente”, tendo “uma profunda ligação ao mundo interior”. Porquê, esta definição?

Entre as mil conversas que tenho e sempre tive com o meu pai ele um dia disse-me “Tu minha filha és um ser humano curioso. Não te consigo bem definir. Sempre foste curiosa, ponderada e sensível. Eu sei que gostas das palavras, mas eu ainda não sei bem quem tu és. Diria que tu és uma “wanderer” que anda nesta vida para se compreender a si própria e aos que te rodeiam.” Gostei da definição dele porque foi uma resposta tão vasta como aquilo que sinto que sou (ou não somos todos?). Sempre fui consciente da existência do meu mundo interior, da minha percepção do eu, da forma da minha identidade. Algo que tenho que agradecer aos meus pais, que sempre me fizeram mais perguntas do que respostas, o que me obrigou a ter de pensar por mim… uma tarefa chata aos 12 anos, mas útil aos 32. [risos]

Acredito que o início das pessoas é sempre bom, que as coisas podem funcionar, que temos capacidades ilimitadas para sermos melhores seres humanos com os outros e connosco próprios, que todas as ideias são boas, até não resultarem mais…

E viajo! Viajo nas histórias das vidas das pessoas. Quero realmente compreender, perceber porque fizeram o que fizeram, a origem, a motivação, o medo, a crença. Porque é que as coisas são como são?

E viajo o mundo! Sou mais feliz no estranho que no habitual. Não como o mesmo pequeno-almoço todos os dias, mudo de lado de cama de dois em dois dias, raramente repito países para viajar, não gosto de dar as mesmas formações duas vezes, nem repetir os mesmos formatos, nem de saber as mesmas coisas, nem de dizer as mesmas coisas. Não gosto de pensar sempre da mesma maneira, nem de ouvir sempre as mesmas coisas ou conhecer o mesmo tipo de pessoas…

Muitas vezes (não é sempre), tenho um prazer escondido de estar fora do contexto, de não me sentir enquadrada, de não estar a perceber o que se passa… Isto, para mim, é viajar no outro.

Na sala, prefiro ser a que sei menos.

Esse mundo interior é importante, para si? Porquê

Isso é o mais importante para mim. Um dos meus valores chave é a consciência. A consciência que temos de nós próprios, de quem realmente somos, do que realmente criamos, do que realmente pensamos, sentimos e fazemos. Quando entramos profundamente nas nossas entranhas, nas facetas do nosso ser, quando percebemos o tamanho da nossa sombra e da nossa luz, aproximamo-nos daquilo que somos. Há um outro lado: percebermo-nos, faz-nos perceber o outro melhor. Eu verdadeiramente quero compreender. Compreender daquela forma em que se integra o que se aprendeu. Vivermos de acordo com aquilo que somos é um trabalho diário, que deve ser afinado com minúcia, pois sairmos de quem somos para viver o “outro” é um genero de traição a nós mesmos. E quem é que quer fazer isso a si mesmo?

Sinto sempre que tenho que fazer um “catch up” comigo mesma e meter alguns pensamentos em dia.

Acha que, de alguma maneira, viajamos pouco, interiormente?

Sem dúvida! A maioria das pessoas que conheço tem horror a isso. Conhecermos o nosso lado negro pode ser uma dor horrível. Parece que somos uma farsa e que temos um lado de nós que é um pequeno monstro. Quando começamos a ter perguntas, entramos num caminho sem fim. Isso pode ser sufocante. Mas eu gosto muito! Adoro ter perguntas por responder, faz-me sentir viva. Faz-se sentir que consigo pensar, relacionar e criar coisas. Mas viver sem respostas pode ser triste e desolador. Tem que se estar preparado para não comprender a maioria das coisas e viver bem com isso. Quando somos capazes de ultrapassar essa barreira do medo e do desconforto, tornamo-nos livres.

Sinto-me mais livre quando digo que não sei.

Temos medo de nos conhecermos? É importante conhecermo-nos?

Diria que sim, porque depois temos de viver de acordo com aquilo que descobrimos sobre nós. E isso dá trabalho. Andar com uma máscara também dá trabalho, mas é funcional. E, sendo funcional, é só seguir regras. Conhecermo-nos eu traduzo por algo como viver a identidade. Penso que a maioria das pessoas vive em permanente estado de mal-estar e insatisfação porque não vive e não expressa a sua identidade, quem verdadeiramente são. Eu empatizo com essa dor, de não sermos capazes de viver quem realmente somos. Quem somos tem uma força tremenda e quase etérea. Há quem chame essência, mas eu chamo aquela coisa que vem connosco antes de nascermos.

Falo por mim, mas é extensível ao que acredito sobre a humanidade. No momento em que saí da barriga da minha mãe, já vinha com algo que era só meu. Essa tal coisa tornou-se transversal em toda a minha vivência. Sou capaz de defini-la exatamente e tangivelmente? Não. Palavras essas, então, serão sempre imperfeitas. Mas eu observo-me. Observo que há algo transversal nas minhas atitudes: quando eu esperava sozinha a minha vez de ir ao baloiço, quando escrevi um poema aos 7 anos à minha colega renegada, quando entrava em palco para tocar piano, quando acalmava o nervosismo dos mais velhos, quando pensei que mudar o mundo era o plano de toda a gente, quando me mudei para a China, para a Holanda e aterrei em Bangkok. Ter percebido que há algo de comum e que eu não vivo em função do que acontece, mas em função do que eu sou, dá-me alento. Dá tangibilidade ao universo profundo que nós, seres humanos, somos. Mesmo que não mergulhemos nele, ele existe. Por isso é que ser-se Humano é tão fantástico.

Também li que detesta as pessoas que tentam ser perfeitas… A perfeição não existe?

Para mim, não existe. Existe um momento em que as coisas funcionam, um momento breve em espaço e tempo, em que tudo está em harmonia. Perfeição é harmonia. Podem os elementos não estar no seu ponto ótimo, mas, em conjunto, funcionam.

Adoro isso! Adoro ter esse olho de afinar os momentos, os pensamentos, os conhecimentos, os sentimentos de forma a que resultem para aquele momento. Porque, depois, já passou. O que está em harmonia agora, no momento a seguir, entra em desarmonia.

A perfeição, para mim, é aquele longo segundo em que uma pessoa se consegue manter de pé na fita do slackline, depois de ter estado 99% do tempo a manter o equilíbrio entre a esquerda e a direita.

Criou a organização Sapana. Como surgiu e porquê?

Em 2011, no meio da crise, passaram-me a ideia de que Portugal ia acabar. O desespero era tal que parecia que não havia solução. Eu e a minha melhor amiga, Carolina Almeida Cruz, sentadas no café a falar sobre os temas do interior dissemos “não é possível as pessoas não se conseguirem reeinventar. Essa é a força da auto-consciência. Conhecermo-nos é o ponto de partida para nos reeinventarmos”. Nessa altura, era o que precisávamos urgentemente para voltarmos todos a ter emprego.  

O que é? O que fazem?

Programas de desenvolvimento pessoal com pessoas que vivem situações e em contextos vulneráveis: jovens em centros educativos, reclusos dentro de prisões, jovens afastados do mercado de trabalho e desempregados. A missão é desenvolver a auto-cosciência como ferramenta para sociedades sustentáveis e coesas.

A determinada altura da sua vida, sentiu que queria sair de Portugal.. Porquê?

Sempre quis. Desde que me lembro. Primeiro aos 15/16 anos, tinha o sonho de viver em Londres. Não sucedeu. Depois, entrei na faculdade (tempo que adorei!) e houve a oportunidade de fazer Erasmus. No entanto, era tudo na Europa e eu estava à procura de algo fora da Europa. Já tinha praticamente acabado o curso, quando a minha faculdade fez um acordo em papel com a universidade de Pequim. Não havia nada tratado, as universidades não tinham trabalhado juntas, nem sabiam como apoiar os estudantes. Mas meti no google “Pequim”. Apareceu Tianammen nas imagens e achei uma excelente ideia.

Não fazia ideia do que me esperava. Só tinha falado com duas pessoas que tinham estado em Pequim e, na altura, (há 12 anos), não fazia muitas pesquisas na internet. Cheguei lá e foi um choque! Os primeiros dias só chorei! Mas depois passou-me o choro e, hoje em dia, apesar de ter viajado durante um ano e meio, sinto que foi dos melhores momentos! Porque a China é só dos países mais estranhos onde estive…e eu adoro o estranho! [risos]

Quando acabaram os 6 meses, já não queria voltar para Portugal. Tentei Hong Kong, mas era muito caro e muito competitivo. Todos lá pareciam (e com certeza que eram) muito mais inteligentes, competitivos, e com melhor CV do que eu… Voltei para Portugal.

E porquê a Holanda?

Enquanto estava na China, havia um grupo de holandeses meus colegas (ainda hoje amigos) altamente progressistas. Tudo o que era temas de drogas, homosexualidade, sexualidade e afins, eles nem participavam nas conversas acesas à volta da mesa do bar…

Uma vez, chamei um dos meus amigos a um canto e perguntei “ Mas diz lá, como é que é lá na Holanda com a homosexualidade? Como é visto e aceite?” Ele, com o seu maior ar de desdém e até desinteresse responde “ Sorry, I dont get you question. That’s a non topic for us”.

E eu disse naquele momento, que me lembro tão bem “ é aqui que eu quero viver!”

Voltei para Portugal, arranjei namorado e por acaso o irmão do meu namorado vivia na Holanda. Foi ele que sugeriu vivermos lá.

Fiquei radiante. Ele foi primeiro… mas depois acabámos – logo um mês depois… Eu fui na mesma!

Esteve, então, a viver na Holanda, país para onde partiu sozinha…. Foi duro? Porquê?

Nas primeiras semanas sim. Ia com o dinheiro contado, portanto não me podia pôr em grandes aventuras. Prometeram-me casa 3 vezes, mas acabei por mudar de casa 7 vezes num mês! Isso foi duro. Não saber onde ia ficar e o que ia acontecer.

Sentiu medo?

Estranhamente, não. Geralmente, penso e planeio bastante as coisas e preocupo-me bastante com o futuro. Mas com a Holanda foi uma paixão diferente. No terceiro dia mudei-me para um hostel no centro de Amesterdão, onde me ofereciam dormida, em troca de limpezas e arrumação de quartos. Achei o negócio ótimo!

Claro que estava sozinha… Não tinha contacto com o meu ex-namorado e fui beber café com dois amigos de amigos meus que estavam em Portugal e que se encontraram comigo por simpatia.

Mas, um dia, estava a caminhar pelo canal e pensei para mim: “sinto-me em casa! E daqui não saio… Portanto isto ou vai ou raxa e eu vou ter que encontrar uma solução”. Quando pensei isso, não foi com medo, mas com vontade e tranquilidade, ao mesmo tempo. (não me aconteceu muitas mais vezes na verdade!)

Quais foram os principais desafios, nessa fase?

Esta fase foi peculiar. O hostel onde estava a trabalhar recebia refugiados que faziam o mesmo trabalho que eu. Naturalmente, relacionava-me bastante com eles. Isso foi o mais duro e foi por isso que decidir sair do hostel mais cedo. Eu estava ali por opção, porque tinha decidido ir dar um passeio a outro país e ver as vistas. Eles não.

Apesar de não sentir medo, sentia preocupação de não conseguir alcançar o que queria. Mas vê-los numa situação sem escolhas, deu cabo de mim emocionalmente. Eu preocupava-me por mim e por eles… era gerir muito.

Estava com empregos precários…alguma vez pensou em desistir e voltar para Portugal?

Nunca me passou pela cabeça. Em nenhum momento. Eu ainda vivo na Holanda.

Entretanto, depois de alguma resiliência, conseguiu ir trabalhar para a Tommy Hilfiger.

Como surgiu esta oportunidade?

Enviei alguns curriculos via online, até surgir esta oportunidade. Fui a uma entrevista e fiquei!

E na Nike, como foi?

O mesmo. Depois de 2 anos e meio queria algo diferente e candidatei-me pelos sites.

Mas a experiência da NIKE foi outro momento altamente feliz na minha vida! Cresci imenso profissionalmente e como pessoa. Tornei-me muito mais segura, com mais confiança e com mais coragem. Mas este sentimento é transveral a outras pessoas que já trabalharam lá. Eu fiz a minha pesquisa.

O que sentiu quando conseguiu ingressar nessas multinacionais?

Sorte de principiante e que nunca ia voltar a acontecer outra vez. Tanto na Tommy Hilfiger, como na NIKE. Demorei um bocado de tempo a acreditar que, se quisesse outra vez, conseguia. Mas estou tão grata pela experiência nas multinacionais, de tudo o que aprendi! É-me mesmo útil!

Em 2017, decidiu deixar a Nike e ir viajar para a Ásia. Porquê?

27 anos dizem… [risos] Eu já queria ter dado o salto há mais anos, mas não tinha coragem. Queria viver a minha identidade. Ou seja, queria poder escrever à quarta à tarde, trabalhar ao sábado, fazer coaching, viajar, dar workshops e ter o meu projeto de empreendedorismo social. Mas tinha medo de não conseguir, de ter problemas com o dinheiro, de não estar preparada… o clássico.

Um dia, falei com o meu pai sobre isso e disse-lhe: “na verdade quero é ir viajar durante 3 anos e voltar quando já não quiser mais. E depois expressar a pessoa que sou na criatividade, sensibilidade e empreendedorismo.“ Ele nunca tinha ouvido aquilo da minha boca, porque eu, geralmente, só falo quando tenho as decisões tomadas e não quando tenho dúvidas. Aquilo foi um pedido de ajuda. E falámos durante horas sobre os meus medos. Ele só me dizia “eu não percebo o teu medo. Tens medo mesmo de quê?. Continua-me a explicar até eu perceber”. E eu expliquei de todas as formas que pude, com todos os exemplos que sabia… mas ele não parecia perceber. Foi então que, durante a conversa, tive uma epifania. E no dia seguir falei com a minha chefe na NIKE e disse que dentro de um ano me ia embora. E assim foi.

Como foi essa experiência? O que sentiu?

Os meses que ainda fiquei na NIKE foram maravilhosos. Foi uma despedida feliz da NIKE e da vida que tinha, que não é a mesma que a de hoje.

Mas quando aterrei em Bangkok e tirei a mala das costas, o primeiro pensamento foi: “estava a ver pah! Já não era sem tempo!”.

Estava radiante! Pensei que ia ficar apreensiva – o normal em início de viagem. Mas não. Parecia que já lá devia ter chegado anos antes. Estava em casa.

Regressou ao país em 2018 e refere que foi uma viagem dificil de digerir… Porquê?

Não vou conseguir descrever o porquê de ser dificil de digerir. Mas vou tentar mencionar algumas coisas relevantes. Embora tenha sido quase um ano e meio, para mim, viajei rápido. Para muitos, viajei devagar, porque em bastantes lugares, fiquei 2 ou 3 semanas. Mas eu sou de digestão lenta.

O corpo anda mais rápido do que a mente. E nós temos que processar aquilo que sentimos, vemos e aprendemos.

Fiz uma viagem humanitária. Há muitos viajantes que adoram descobrir destinos de aventuras, exóticos, visitar todos os pontos turísiticos ou apenas dar uns passeios e beber umas cervejas.

Eu fui pelas pessoas. Conheci mesmo muita gente local, porque, principalmente na Ásia, viajei com tenda. Ouvi muitas histórias e vi muitas formas de viver e de estar distintas. Passei por 9 organizações sociais, onde estive a trabalhar com os fundadores. Quando cheguei a North Sumatra (Indonésia), estive 5/6 semanas sem ver qualquer ocidental, porque estava exposta só à vida local, com os locais. E eles são como nós, claro, mas com regras diferentes. E essas regras desafiam as nossas regras. As suas histórias fazem-nos pensar nas nossas. As suas dores ou alegrias lembram-nos quem nós somos. E eu nunca passo pelas coisas em vão. Foi preciso afastar-me, para poder voltar. E durante 2018 e 2020, não falei sobre isso. Depois, em 2020, comecei a escrever no blog. Esta viagem, transformou-me profundamente.

Tornei-me mais calada, mais corajosa, com quase nenhumas certezas, mas com imensas perguntas e muito mais tranquila.

Em 2019, criou um programa de coaching para impacto – Achieve2Sustain – e lançou a sua empresa social, a Ant.Element. Como foi, dar este grito de ipiranga e lançar-se nesse projeto?

Para mim, foi mesmo o grito do Ipiranga! Ninguém quer saber do meu grito do Ipirante, na verdade! Mas eu preciso de vê-lo assim para poder fechar o ciclo da NIKE. A Achieve2Sustain, a Ant.Element, e o blog foi o afunilar de quem sou. Ou melhor, expressar aquilo que quero viver. Mas foi assustador. É uma forma de estar diferente. Mais insegura financeiramente, que expõe o que fazemos de bem e o que temos que melhorar. É um caminho, acima de tudo, solitário…porque, no final da linha, as decisões são sempre individuais. Não há uma equipa ou um chefe para partilhar responsabilidades. Mas estou a fazer aquilo que eu sou!

O que é o programa e o que faz?

Eu sempre fiz coaching e desenvolvimento pessoaL na SAPANA. O Achieve2Sustain foi um programa que criei especifico para indivíduos que se querem conhecer melhor, viver a sua identidade e utilizar isso em prol do outro. A Ant.Element é uma consultora de negócios sociais e gestora de projeto com o objetivo de incentivar todas as pessoas e organizações a resolverem um problema para a sociedade. A Ant.Element é sobre a nossa responsabilidade como seres humanos em fazer parte da mudança. Há demasiada gente em sofrimento, para nós nos darmos ao luxo de não fazer nada. Quem somos nós sem eles?  Quem somos nós sem uma terra sã? Eu não faço apenas pelas gerações futuras, mas pela situação presente. Não posso não fazer, quando o posso fazer.

Hoje é uma pessoa mais feliz?

Hoje perguntei ao meu namorado “Podemos ser tão felizes?” Sou feliz e estou feliz porque vivo quem sou. Expresso o que sinto, o que penso, o que acredito e o que quero. E não sinto a vida a passar-me pelas mãos.

Acha que é importante seguirmos os nossos sonhos?

Acho importante seguimos o que somos.

E viajarmos, abrirmos os nossos horizontes? É fundamental?

É a chave. Para mim, é o mais importante, mas cada um tem os seus mecanismos. E desde resultem, são todos igualmente válidos. Mas não há nada como experimentar com as nossas mãos, os nossos olhos, os nossos sabores e os nossos cheiros. Quando o fazemos pelo nosso pé e não o dos outros, transformamo-nos mais rapidamente, porque compreendemos com outra profundidade. O meu pai sempre me disse “se queres saber a realidade, mesmo como ela é, vai e pergunta às pessoas como é que elas vivem”. E foi isso o que fiz e o que continuo a fazer, todos os dias da minha vida.

Esta pandemia travou isso..?

Viajei fisicamente menos… mas nunca paro de procurar. E conheci muito este último ano.

O mundo vai ficar muito diferente, depois de tudo isto?

Penso que sim! Temos de passar pelas coisas à força para vermos que é possível fazer diferente. E já descobrimos formas diferentes de estar, que ainda não estão integradas, mas que, afinal, funcionam.  Confio nas pessoas e nos seus dons criativos para tirar o melhor de cada situação. E apesar de termos tido recuos em vários países – pois estes não tiveram a capacidade socio-economica de acompanhar o COVID – isto é muito grave para todos nós. Ainda assim, acredito que melhores soluções vão aparecer no pós-covid.

Para um futuro próximo, o que quer?

Que a Ant.Element se torne uma ativista em “One’s problem is Everybody’s problems”. Quero estar na frente da ideia de que a sustentabilidade não é só um tema do futuro, mas do presente! E um filho ou filha… [risos]

Blog : https://theuniverseinsideofyou.medium.com/

Youtube video: https://www.youtube.com/watch?v=wEvPbnuMwCM

Lutar pela (In) Diferença

Lutar pela (In) Diferença

É a cuidar dos outros que se sente feliz. Mas é a cuidar dos seus que vive os seus dias em plenitude. Mãe de dois rapazes, Pedro, com 4 anos, e João, com 2, é autora do blog ‘A Mãe Imperfeita’. ‘Uma Lição de Amor’ é o nome do livro que acaba de lançar, um projeto onde o apelo à diferença tem explicação na surdez profunda bilateral do filho mais velho e que surge na base de uma promessa: “enquanto cá estiver, nunca deixarei de lutar pelos direitos do meu filho”

Carmen Garcia é enfermeira há onze anos. Poder cuidar de pessoas foi a missão que se sobrepôs ao objetivo inicial: ser médica. “Nunca quis ser enfermeira. Não era nada uma opção que considerasse. Entretanto, acabei por ir parar à enfermagem por um azar do destino. Eu queria Medicina e não entrei”, diz, acrescentando: “a ideia era ir fazendo enfermagem e, ao mesmo tempo, estudar novamente para os exames nacionais para, no final do primeiro ano, voltar a concorrer. Só que depois aconteceu aquilo que eu não esperava, de todo: começar a gostar demasiado do curso. Comecei a gostar tanto de enfermagem e a ser tão feliz no curso, que depois, para desespero de muita gente que me conhecia, já não quis repetir os exames. E decidi ficar enfermeira.” Mais do que tratar, Carmen Garcia queria cuidar dos outros. Talvez por isso a vida lhe tenha dado outra missão. Desta feita, mais difícil e com maiores desafios. “Chorei toda a noite quando me apercebi que o meu filho nunca iria ouvir o som da chuva”, confidencia, relembrando o dia em que recebeu, com o marido, o diagnóstico de surdez profunda bilateral do Pedro, filho mais velho. “Fui a pé do berço onde ele estava e prometi-lhe que, enquanto vivesse, enquanto respirasse, enquanto tivesse força, que a minha vida ia ser dedicada a fazer aquilo que eu pudesse para que ele, e outros meninos como ele, tivessem a vida mais facilitada. Prometi-lhe que não ia vacilar nem desistir”. E nunca desistiu. Três dias depois de receber o diagnóstico do filho, a vida oferece-lhe mais um desafio. “Descubro que estou grávida e começo logo a perder sangue, disparatadamente. Fui logo para repouso. E, então, vejo-me em repouso absoluto numa cama, sem me poder mexer, com uma criança de um ano que tinha acabado de saber que era surda profunda”, diz.

‘A Mãe Imperfeita’, é o nome do blog que surge como resultado de uma fase de vida conturbada., como explica: “passava muito tempo nas redes sociais e na internet e só via vidas perfeitas, fotografias de viagens, blogs com filhos muito bonitos, todos vestidos de igual… e a minha vida era uma confusão! Não sentia nada daquelas coisas, sentia-me, às vezes, até, zangada e achei que fazia falta alguém falar das coisas como elas eram. Era quase o lado B da maternidade ou o outro lado, o darkside, que também existe!”

Com um livro já editado, ‘Os 1º Mandamentos de uma Mãe Imperfeita’, de 2018, acaba de lançar ‘Uma Lição de Amor’, um livro que “é para crianças mas que é, essencialmente, para pôr os pais a falarem com as crianças sobre a diferença e para fazer os pais refletirem um bocadinho, também.”

Uma entrevista publicada na Luxwoman, para ler abaixo.

Carmen Garcia

É enfermeira de Cuidados Intensivos no Hospital do Espírito Santo, de Évora. Porquê a enfermagem?

Eu nunca quis ser enfermeira. Não era nada uma opção que considerasse. Entretanto, acabei por ir parar à enfermagem por um azar do destino. Eu queria Medicina e não entrei por mesmo muito pouco… Estava convicta que entrava, até à data das colocações. Quando fui preencher a folha de candidatura, coloquei Medicina nas 5 primeiras opções e, na sexta, pus enfermagem, porque pensei: ‘não vá haver um azar qualquer!’ Mas nunca pensando que esse azar fosse mesmo acontecer! E aconteceu, na verdade. A ideia era ir fazendo enfermagem e, ao mesmo tempo, estudar novamente para os exames nacionais para, no final do primeiro ano, voltar a concorrer. Só que depois aconteceu aquilo que não esperava, de todo: começar a gostar demasiado do curso. Comecei a gostar tanto de enfermagem e a ser tão feliz no curso, que, depois, para desespero de muita gente que me conhecia, já não quis repetir os exames. E decidi ficar enfermeira.

O que a fez gostar tanto do curso?

Quando entrei, o curso estava estruturado de uma maneira um bocadinho diferente do que está agora. No primeiro ano, tivemos logo um estágio, um ensino clínico. Era num centro de saúde, mas eu calhei num centro de saúde que tinha acoplada uma UAI – Unidade de Apoio Integrado, que agora é uma Unidade de Cuidados Continuados. Nós fazíamos muitos turnos na Unidade de Cuidados Continuados e eu percebi que gostava – mais do que de curar ou de tratar – de cuidar das pessoas. Eu percebi isso com esses doentes da UCC, com essas pessoas e depois já não consegui mudar.

Acaba por ser essa a missão da enfermagem? Deve ser esse o sentimento para se ser enfermeiro/a?

Acho que sim. Apesar de achar que essa questão da vocação, de sermos uns anjos sem asas, etc, nada disso é verdade! A enfermagem é uma profissão que tem um corpo teórico próprio e que exige que se estude muito. Enfermeiros que estudam pouco ou que têm poucos conhecimentos teóricos são maus enfermeiros. Mas, obviamente, não é possível ser um bom enfermeiro se não se for um cuidador. Todos os enfermeiros são cuidadores. E eu noto isso mesmo nas outras vertentes da minha vida: sou cuidadora de toda a gente. Acho que isso é uma característica muito da enfermagem, nós cuidamos de quem está à nossa volta.

É essa a essência de se ser enfermeiro, então?

Sim. Depois, claro, há uma parte em que se mistura tudo: a nossa vida fora da enfermagem com a enfermagem. Aliás, a enfermagem tem uma coisa terrível: é muito difícil fecharmos a porta do hospital e não trazermos os doentes connosco, para casa. Quem é enfermeiro vive quase 24 horas por dia a enfermagem, porque é difícil desligarmo-nos das pessoas de quem cuidamos, não é fácil.

Ficam a pensar sempre nas pessoas e nos casos que têm?

Sim. Há sempre situações mais graves. No meu caso, em que o meu marido também é enfermeiro, discutíamos muitas vezes as situações, um com o outro. Situações do serviço dele, das saídas dele na VMER – Viatura de Emergência Médica, dos meus doentes nos Cuidados Intensivos… Às vezes é difícil fazer essa gestão. E depois há outra questão mais relacionada em concreto com os Cuidados Intensivos: não são internamentos curtos, normalmente as pessoas não entram num dia para saírem no outro. E é uma toda situação em que temos as famílias… ninguém quer ter familiares internados nos cuidados intensivos. Acabamos por estabelecer uma relação muito forte com as famílias, porque habitualmente os doentes estão sedados, não respondem e nós estamos ali, sempre disponíveis e tentamos muito fazer essa ponte. E às vezes trazemos, não são só os doentes, mas também as suas famílias para casa! É tramado! Começamos a conhecer as histórias das pessoas. Eu lembro-me de uma situação, na qual andei a pensar imenso tempo, de uma senhora que tinha três filhos, que morreu e que depois foi para dadora de órgãos. O filho mais novo não queria aceitar a morte cerebral e o facto da mãe ser dadora de órgãos, aquilo foi muito mau! Andei semanas com aquela família e com aquele miúdo às costas e a pensar: ‘como é que eles estarão?’, ‘Como é que estarão a reagir?’, ‘Será que o miúdo já está melhor?’, ‘Será que já o levaram a um psicólogo?’

Tudo isso traz algum desgaste psicológico?

Traz muito! A enfermagem é uma profissão absolutamente desgastante! E muito desgastante também fisicamente, ao contrário do que muita gente pensa. Não andamos ali nos hospitais a fazer pensos e a dar injeções. Nós posicionamos as pessoas, levantamo-las… E, por muito corretas que sejam as técnicas, fazemos muita força física. Mas o desgaste psicológico, sem dúvida, é muito complicado. As outras pessoas que não estão dentro dos hospitais, que não são profissionais de saúde, conseguem arrumar a mortalidade ou a morte, num cantinho da cabeça, está fechada num compartimento. Habitualmente, só pensamos na morte quando somos confrontados com ela. No nosso caso, dos enfermeiros, dos profissionais de saúde, quem trabalha especialmente numa realidade como a minha, do UCI, a morte é o nosso dia-a-dia. No hospital, somos diariamente e várias vezes ao dia, infelizmente, confrontados com a finitude e com a nossa própria mortalidade e isso desgasta… O cemitério que nós todos temos às costas, é desgastante.

Acrescenta um peso extra ao dia-a-dia?

Sim, começa a acumular, começa a ser um cansaço acumulado. Eu sinto muito isso. Eu vou deixar agora o hospital por isso. Sinto que já vi demais, já vi muito mais coisas do que queria ter visto. Aquele caminhar na vida tão bonito e tão inocente, perde-se todo dentro dos hospitais. Vou ficar até ao final do ano no hospital mas depois vou sair.

O seu marido também é profissional de saúde. Trabalha, igualmente, no Hospital de Évora?

É também enfermeiro lá, sim.

Conheceu-o lá?

Conheci-o lá, sim. [risos] Trabalhávamos juntos na Cardiologia, na Unidade de Cuidados Intensivos Coronários, e depois eu mudei para a unidade polivalente, ele manteve-se na unidade coronária. Continua enfermeiro lá, também. E é enfermeiro na VMER.

Como se consegue em termos da relação fazer uma gestão equilibrada?

Mal… Não se consegue! [risos] Não dá para dourar esta pílula, é algo que funciona mal… Agora funciona melhor, porque eu também vou deixar o hospital. É o cansaço, por um lado. É a falta de reconhecimento, por outro. Mas também é para dar alguma qualidade de vida aos meus filhos.

Porque depois têm de ajustar os turnos?

Claro. E com esta questão do Covid temos turnos de 12 horas. Isto é incomportável. Os miúdos entram na creche, a creche fecha e nós continuamos no hospital. Eu agora não estou a trabalhar, porque estou de licença de apoio à família, mas o meu vínculo mantém-se. Nós chegámos a um ponto, quando estávamos os dois a trabalhar, em que eu tinha de levar os miúdos no carro para trocar com ele, ali, no carro… Porque estava um a sair e outro a entrar… É muito complicado. Nós, como casal, sofremos imenso com isto, temos muito pouco tempo juntos e muito pouco tempo de qualidade.

O que se pode fazer?

Às vezes é aceitar um bocadinho que as coisas são como são. É difícil dourar isto, na verdade. Eu gostava muito de poder dar uma perspetiva boa, mas não a tenho. Às vezes é aceitar que é assim e que na nossa realidade só assim pode funcionar.

Portugal é diferente dos outros países me termos da carreira na Enfermagem?

Acho que há uma parte que é muito semelhante em todos, todos aqueles que eu tenho conhecimento, pelo menos. Eu conheço, por exemplo, um casal de enfermeiros italianos, em que também é um bocado assim, ela tem o horário fixo das manhãs e ele das tardes. A única diferença, objetivamente, é o facto deles terem, noutros países, uma carreira e de terem um reconhecimento que nós aqui não temos.

Aqui não há qualquer reconhecimento?

Eu sou enfermeira há 11 anos e continuo no primeiro escalão da carreira, no qual só fui colocada no governo de Passos Coelho, porque, antes disso, como tenho um contrato individual de trabalho, estava à margem. É assim que funciona… Posso dizer que a minha última folha de vencimento numa Unidade de Cuidados Intensivos – num sítio onde não se pode errar, onde há uma responsabilidade elevadíssima – foi de 960 euros! Porque eu deixei de fazer noites e, não fazendo noites, tendo um horário mais fixo por causa dos miúdos, trouxe 960 euros para casa. Não vale a pena! Com o desgaste físico e emocional que eu tenho ali dentro… não vale a pena.

Em Inglaterra, por exemplo, é diferente?

Sim, em Inglaterra é ótimo porque eles têm ótimas perspetivas de carreira: evoluem, têm prémios por mérito, têm imensa facilidade em progredir dentro da carreira com as formações que vão fazendo. Aqui não há nada disso! Podem fazer-se as formações que se quiserem que não se passa da ‘cepa torta’, como se costuma dizer.

E vai sair por tudo isso?

Sim, eu vou tentar conciliar. Porque depois é um bichinho, isto da enfermagem. É muito difícil eliminá-lo e eu não quero, de todo, perder a ligação à prática e à enfermagem. Vou tentar encontrar um part time, fora do hospital. Vou continuar a cuidar.

Tem alguma proposta em carteira?

Tenho algumas propostas que estou a analisar, mas essencialmente eu quero poder continuar a cuidar de alguém, continuar a cuidar de pessoas. Eu já tinha esta decisão mais ou menos pensada, mas o que disparou isto foi um episódio particular. No dia 6 de janeiro de 2020, eu estava a fazer o turno da manhã e o meu avô estava internado no hospital. Ele ligou-me no dia 20 de dezembro porque estava muito mal disposto e eu não liguei muito. Mas depois acabei por falar com uma colega que estava no hospital, que lhe disse para ir à Urgência. O meu avô ficou, entretanto, internado e fez exames durante 15 dias. Percebeu-se que tinha um cancro do pulmão metastizado para os ossos e para o fígado e pronto… aquilo foi uma coisa muito rápida. Ele foi internado dia 20 de dezembro e no dia 6 já não estava vivo… No dia 6, falei com uma colega e ela disse-me: ‘olha, ele piorou muito durante a noite, está mal, está a chamar-te…’ E eu pensei: ‘vou só ver o meu doente e vou para perto dele’. A minha colega enviou-me, entretanto, uma mensagem a dizer: ‘é melhor vires!’ Fui ver o meu doente, para ver se estava tudo bem, e comecei a ouvir um barulho. O meu doente estava ventilado e sedado, mas eu percebi que nos tubos orotraqueais o balãozinho chamado cuff estava roto. A única solução era trocar o tubo. Isso é um ato médico mas tem de ser feito com um enfermeiro. Eu fui chamar o médico e disse que tínhamos de fazer aquilo rápido porque o meu avô estava a morrer lá em cima. E ele disse-me que íamos fazer rápido. Nunca achando que não fosse chegar a tempo de ver o meu avô, eu continuava: ‘tenho de me ir despedir do meu avô, porque eu acho que ele está a morrer lá em cima’, já muito chorosa… E até foi rápido. Eu preparei o material e, em dez minutos, tínhamos o tubo trocado e o doente estável. Só que, quando cheguei ao quarto do meu avô, a minha colega só me disse: ‘ele acabou de morrer’. E o que pensei logo foi: ‘ele morreu sozinho. Porque eu estava, mais uma vez, como sempre na minha vida, a cuidar de outros, a deixar os meus para cuidar dos outros’. E prometi que não queria fazer mais isso, não queria deixar, por exemplo, os meus filhos na noite de Natal para ir cuidar dos filhos dos outros ou para cuidar dos outros… Acho que agora é a minha vez de ser um bocadinho egoísta, não quero mais isto. São sempre os outros em detrimento dos meus e eu não quero mais isso para a minha vida.

‘A Mãe Imperfeita’ é o nome do blog que, entretanto, criou. Como nasceu o blog?

Eu tinha acabado de saber que o Pedro era surdo. Tinha sabido numa quinta-feira que o Pedro era surdo e no domingo, dia 17 de dezembro, soube que estava grávida do João! Com três dias de diferença! Foi uma gravidez completamente inesperada, não foi programada. A surdez do Pedro, eu sabia que era um longo caminho que tínhamos de percorrer e, de repente, descubro que estou grávida e começo logo a perder sangue, disparatadamente. Fui logo para repouso. E, então, vejo-me em repouso absoluto numa cama, sem me poder mexer, com uma criança de um ano que tinha acabado de saber que era surda profunda. Fechada em casa e deitada, passava muito tempo nas redes sociais e na internet e só via vidas perfeitas, fotografias de viagens, aqueles blogs com filhos muito bonitos, todos vestidos de igual… E a minha vida era uma confusão! Não sentia nada daquelas coisas, sentia-me, às vezes,, até zangada e achei que fazia falta alguém falar das coisas como elas eram. Era quase o lado B da maternidade ou o outro lado, o darkside, que também existe!

Acabou por ter logo bastante feedback?

Sim. Eu sempre achei que ia estar a escrever para as minhas amigas, só as convidei a elas – convidei 20 amigas – e depois, de repente, ao fim de uns dias tinha mil seguidores! Nunca pedi likes nem nunca fiz posts patrocinados, nunca pedi para partilharem nada… Não faço isso. Desde o primeiro dia que é igual: escrevo o que me apetece e como me apetece, não programo nada. Só que a coisa depois descontrolaram-se muito e hoje são 100 mil seguidores!

O foco continua a ser sempre falar sobre o dia-a-dia, abordando a diferença e a inclusão?

A minha página, claro, anda muito à volta da inclusão porque o Pedro é surdo. Eu sou mãe de um menino surdo profundo e, portanto, a promessa que eu fiz ao meu filho foi que, até ao meu último suspiro, até ao último dia em que eu aqui estiver, ia lutar pelos direitos dele e de todos os que são como ele, de todos os que têm diferenças. Decidi fazer sempre isto e assumir esta forma de luta, que sempre foi muito clara. Gosto de ‘chamar os bois pelos nomes’, não tenho medo nenhum da palavra ‘deficiência’, nem me choca. Acho que as palavras têm a conotação que nós lhes damos e o que eu quero é que um dia o meu filho, se alguém disser: ‘oh deficiente!’, responda: ‘sou sim e então?’ Não quero que ele tenha medo da palavra. Uma coisa que me irrita profundamente, por exemplo, é que alguém diga: ‘porque é que não deixas crescer mais o cabelinho para tapar o implante?’ Não tenho que tapar! Ele é surdo, usa um implante e eu não tenho de tapar nada! Não estou a incomodar ninguém, nem a ele nem aos outros. Então, sim, eu falo de muitas coisas no blog, falo de disparates, tenho brincadeiras, falo de coisas mais sérias, mas a inclusão é um tema sempre transversal. E tento usar as minhas redes sociais para sensibilizar as pessoas para isso, para a diferença.

Como se originou a surdez no Pedro?

A surdez do Pedro, ao que tudo indica, é consequência de um parto. Nós tivemos um parto muito difícil. Foi um parto onde foram feitas, depois de uma epidural desligada, depois de trinta e tal horas de indução, três tentativas de ventosas e uns fórceps… Depois, uma manobra de ?? que me fez uma fissura em quatro costelas. Acabámos numa cesariana emergente com o bebé já em sofrimento… Foi terrível! Foi um parto mesmo muito duro. Ao que tudo indica, a surdez é uma consequência de tudo isto.

Recebeu o diagnóstico de surdez do Pedro e seguiram-se desafios grandes?

Foi difícil. Ele chumbou logo no rastreio auditivo à nascença, portanto, houve sempre aquela suspeita… Podiam ser ainda restos do parto, líquido e essas coisas, mas depois ele voltou a repetir os testes, voltou a chumbar e por aí em diante. Durante um ano, andámos a fazer testes, fez cirurgia para colocar os tubinhos, para ver se era do ouvido médio, mas, no fundo, fomo-nos sempre mentalizando. E em casa testávamos… Eu lembro-me de uma vez deixar cair uma lata, ele estava a dormir e nem se mexeu! Ou, quando já era mais velhinho e já sentava, gostava de ver o movimento do Panda e os Caricas e batia palminhas, muito contente… Eu tinha aquilo sempre super alto e, quando tirava o som, ele continuava a bater palmas exatamente com a mesma alegria. Acho que a única coisa para a qual não estava preparada era para ser um grau tão profundo de surdez, eu achava que era uma coisa em que ele metia as próteses e pronto… Mas, de facto, não foi. Quando a médica disse que o Pedro era surdo profundo bilateral, eu respirei fundo, fiz o melhor que pude para me aguentar ali e não falei mais com o meu marido sobre isso… Vínhamos os dois a fazer o seu processo de aceitação… Mas depois, à noite, estava deitada na cama e ele também – devíamos estar os dois acordados, não sei, estava cada um virado para seu lado – e começou a chover imenso… De repente, bateu-me uma coisa e pensei: ‘o meu filho nunca vai ouvir o som da chuva!’ E foi muito duro! Chorei a noite toda, não consegui dormir. De madrugada levantei-me – porque não conseguia estar mais na cama, não parava de chorar – e fui a pé do berço onde ele estava. Prometi-lhe que, enquanto vivesse, enquanto respirasse, enquanto tivesse força, a minha vida ia ser dedicada a fazer aquilo que pudesse para que ele – e outros meninos como ele – tivessem a vida mais facilitada, prometi-lhe que não ia vacilar nem desistir. Na verdade, o que eu fiz não foi grande coisa, mas acho que foi mais me tranquilizar a mim.

A segunda gravidez correu bem?

Não, correu super mal! Mas o bebé nasceu bem. Tive um diagnóstico muito precoce de placenta acreta, que é quando a nossa placenta se comporta como um tumor e começa a invadir os órgãos adjacentes, foi um sarilho. Às 14 semanas, na consulta de alto risco, perguntaram-me se queria abortar. Explicaram-me todos os riscos que, eu disse que não queria, porque o bebe estava bem. Tínhamos feito a eco de rastreio do primeiro trimestre, o miúdo estava bem, eu tinha ouvido o coraçãozinho e não fui capaz… Não sei se foi coragem ou estupidez, mas a verdade é que depois correu tudo bem. Foi uma gravidez muito difícil, até ao fim, com muitos exames, muito repouso, muito tempo na cama, mas que, felizmente, correu bem. O João nasceu com uma cesariana programada. Nasceu ótimo e continua ótimo, felizmente!

Que desafios diários traz a surdez num filho?

Nós temos uma vantagem grande por vivermos numa aldeia muito pequenina do Alentejo. A onde ele está, que agora é pré-escolar, tem um ambiente muito familiar, toda a gente se conhece, é uma comunidade. O Pedro, nesse sentido, tem muita sorte porque está muito bem rodeado e tem uma educadora muito boa. Felizmente, nós conseguimos uma coisa que muitos pais têm muita dificuldade: pelo menos duas vezes por semana fazemos terapia no hospital, gratuitamente. Mas a surdez é uma coisa estupidamente cara! Antes de colocarmos o implante no Pedro, ele teve de testar umas próteses e tivemos de pagar 8 mil euros. Depois, a prótese não funcionou e tivemos de partir para implante. No Serviço Nacional de Saúde não é possível escolher o implante que é colocado e quisemos escolher o do Pedro. Quisemos escolhar, também, uma empresa que nos garantisse uma melhor assistência técnica e um implante, esteticamente, que fosse menos agressivo e com algumas funcionalidades que outros não têm. Com a cirurgia e com tudo contabilizado, o implante ficou em cerca de 30 mil euros! E mais… O processador novo para o implante dele, que saiu em 2019 custa 11 mil euros! Ninguém tem noção de quanto custa uma surdez! E em pilhas! As pilhas do implante são caras, a terapia que não fazemos no hospital, a que é feita fora, é cara, é tudo caro!

E não há apoios do Estado?

O Estado põe implantes, mas é uma luta… Por exemplo, os miúdos têm um implante que até pode ser do Estado, mas parte-se um cabo do implante que custa mil euros e já têm de ser as famílias a assumir esse custo, o Estado não assume. Portanto, eles colocam os implantes mas não assumem manutenção nem reparação nem coisa nenhuma. E estamos a falar de danos que não são de 20 euros.

É uma luta constante?

Sim. E depois há outras questões… Por exemplo, todos os dias, eu trabalho com o Pedro em casa, fazemos um bloco de 30 a 40 minutos de trabalho estruturado, todos os dias. Acho que lhe devo dar todas as ferramentas possíveis para comunicar, portanto, fazemos esse trabalho todos os dias. Ter um filho surdo dá muito trabalho e os apoios são muito poucos, na verdade.

E a profissão dos pais não ajuda?

Claro! Essa foi a primeira grande razão que me levou a querer sair do hospital, a maior de todas. As outras também foram fatores importantes e a morte do meu avô foi a que me fez dar realmente o salto, mas a primeira grande razão foram os meus filhos e, especialmente, o Pedro, por isto, porque, como é que o levamos à terapia da fala, com os dois a trabalhar? Como é que consigo trabalhar diariamente blocos com o meu filho? Não é fácil… E ninguém tem noção, de quanto custa a surdez, do trabalho que é feito…

Uma das suas grandes lutas é pela aceitação da diferença. Em Portugal não há aceitação dessa diferença?

Acho que começamos a fazer alguma coisa na diferença visível, apesar de haver sempre aquelas pessoas que não o fazem, mas começamos a ter mais cuidado em não deixarmos, por exemplo, o carro em cima do passeio porque pode vir alguém em cadeira de rodas, de não estacionarmos no lugar dos doentes motores, etc. O nosso grande problema continua a ser a falta de tolerância para a diferença que não se vê. Eu costumo dar o exemplo do filho de uma amiga minha que tem uma hiperatividade medicada e mesmo assim é de difícil controlo. Ela organizou uma festa de anos incrível para ele, convidou os 24 meninos da sala… e apareceram duas crianças, sendo que uma delas, inclusive, disse: ‘só vim porque a minha mãe me obrigou porque, eu nem sequer gosto de brincar com ele!’ E isto é terrível, porque, se calhar, aqueles pais, em casa, nunca explicaram que aquele menino tem um problema. Porque, quando a deficiência não se vê, perdemos um bocadinho a capacidade de explicarmos as coisas e acho que há muito trabalho a fazer nesse sentido em Portugal, mesmo muito!

Pode começar por onde?

O que eu mais defendo é que a inclusão tem de começar em casa. A primeira coisa que nós temos de fazer é aceitarmos os nossos filhos, porque se, não os aceitarmos e fingirmos apenas que aceitamos, eles nunca se vão aceitar a eles próprios e não podemos pedir aos outros que os aceitem. Quando eu vejo pais que fogem da palavra ‘surdez’ ou ‘deficiência’ ou que não assumem o problema frontalmente, acho que aquelas crianças nunca vão crescer a aceitar-se porque percebem que os próprios pais não os aceitam. Portanto, os pais das crianças com deficiência têm de ser os primeiros agentes da inclusão. Depois disso, têm de ser todos os pais, porque as crianças aceitam muito mais naturalmente a diferença do que nós. Eu lembro-me sempre do filho de uma amiga minha, em que eles vieram a minha casa numa era pré-covid, logo quando o Pedro tinha posto o implante. O miúdo foi à casa de banho com a mãe e disse: ‘oh mãe, eu posso ter um implante como o do Pedro?’ Porque ele achava que aquilo era uma coisa de super-herói. Este livro que escrevi é para crianças mas é, essencialmente, para pôr os pais a falarem com as crianças sobre o assunto e para fazer os pais refletirem um bocadinho também porque as crianças aceitam a diferença muito mais naturalmente do que os adultos e, às vezes, somos nós, com os nossos próprios preconceitos, que os passamos aos nossos filhos.

‘Uma Lição de Amor’, Ego Editora, €11,90
Vamos sorrir?

Vamos sorrir?

A vida faz-se de percalços. Mas também de momentos bons que assumem, depois, um formato mais significativo, traduzindo-se em memórias que guardamos com carinho. De dias bons. De dias menos bons… De um somatório de vivências e de experiências.

Se um desconhecido lhe deixar um bilhete, num dia onde as razões para sorrir parecem ter desaparecido… Vê? Guarda? Ou nem repara…?

A proposta é de Daniela Barreira e baseia-se numa premissa muito simples: “mudar o mundo de alguém, através de pedacinhos de amor escritos em post-its”, explica.

O projeto Tatuar Sorrisos nasceu em fevereiro de 2012, numa viagem de metro. “Lembro-me de começar a notar e a sentir aquilo de que se fala desde sempre, que é o facto de andarmos, tantas vezes, fechados na correria dos nossos dias e da nossa vida. De olhos fixos no chão, no vazio. Sem olhar as pessoas com quem nos cruzamos todos os dias. Sem reparar no que nos rodeia. E em quem nos rodeia. Lembro-me de, num desses dias, me questionar: “E se… Se houvesse aqui alguma coisa diferente… alguma coisa, por mais pequenina que fosse, que estivesse aqui a mudar o cenário habitual de todos os dias… Será que alguém repararia? Será que cativaria o olhar, a atenção, o coração de alguém? E se?” E apeteceu-me experimentar”, diz a mentora. Experimentou e não mais parou!

Daniela Barreira, em entrevista.

Como nasceu o projeto Tatuar Sorrisos e porquê?

O Tatuar Sorrisos nasceu em fevereiro de 2012, numa das minhas viagens diárias de metro para a faculdade. Lembro-me de começar a notar e a sentir aquilo de que se fala desde sempre, que é o facto de andarmos, tantas vezes, fechados na correria dos nossos dias e da nossa vida. De olhos fixos no chão, no vazio. Sem olhar as pessoas com quem nos cruzamos todos os dias. Sem reparar no que nos rodeia. E em quem nos rodeia. Lembro-me de, num desses dias, me questionar: “E se… Se houvesse aqui alguma coisa diferente… alguma coisa, por mais pequenina que fosse, que estivesse aqui a mudar o cenário habitual de todos os dias… Será que alguém repararia? Será que cativaria o olhar, a atenção, o coração de alguém? E se?” E apeteceu-me experimentar. Foi assim que começou.

Comecei, um dia, a deixar pedacinhos de amor por aí, escritos em post-its. E hoje, anos depois, este bloco de post-its escritos com o coração, ao qual dei o nome de Tatuar Sorrisos, já faz parte dos meus dias, dos meus lugares e das minhas pessoas. Já faz parte do que sou.

Porquê? Por acreditar que o amor muda o mundo. Por acreditar que um pedacinho de amor, mesmo o mais pequenino, muda o mundo. Pela minha vontade de viver e ser isto. Todos os dias. E de o mostrar às pessoas, fazendo-as sentir isso e vivê-lo, também. Mudando o mundo de alguém, tatuando um sorriso no dia de alguém, na vida de alguém, no coração de alguém.

Sente-o como uma ‘missão’?

O Tatuar Sorrisos tem como missão “tatuar sorrisos no dia de alguém, na vida de alguém, no coração de alguém”. Mudar o mundo de alguém, através de pedacinhos de amor escritos em post-its. Com esta forma tão simples, se isto realmente tocar alguém, se, no meio das mil pessoas a quem não muda nada, existir pelo menos alguém a quem mude alguma coisa… eu não poderia escolher missão mais bonita para mim. Algo que espelhasse melhor aquilo que eu sou e aquilo em que eu acredito. Por isso, posso dizer que sim, que o sinto como uma missão.

Acredita que as pessoas hoje não são tão felizes, de alguma maneira? Que vivem mais preocupadas ou stressadas?

Posso arriscar dizer que talvez haja pessoas que nem se apercebem do tanto que têm para ser felizes. Vivemos preocupados e stressados, sim. E, ainda mais do que isso, vivemos em correria. Vivemos, todos os dias, a correr mais depressa do que o tempo. Sem tempo para parar. Para demorar. E, lá está, sem tempo para reparar. No que nos rodeia, em quem nos rodeia e no tanto que temos, todos os dias. Esquecemo-nos de parar e de demorar num abraço mais forte. Esquecemo-nos de parar e de demorar num entrelaçar de mãos mais seguro. Esquecemo-nos de parar e de demorar num cruzar de olhares mais fundo. Esquecemo-nos de parar e de demorar num sorriso mais cúmplice. Esquecemo-nos de parar e de demorar num beijo mais longo. Esquecemo-nos de parar e de demorar nas pessoas que são nossas, nas pessoas de quem nós somos. Esquecemo-nos que não há correria nenhuma que compense o amor a acontecer. E, sobretudo, esquecemo-nos, muitas vezes, do que importa de verdade. Que é isto que importa de verdade. Estes pequenos nadas, que temos todos os dias, e que são tudo. Tudo o que importa para sermos mesmo felizes.

A pandemia veio agravar isso?

Não sei… Acho que já éramos assim antes. Há muito tempo. Acho que a pandemia pode ter agravado a preocupação e o stress, sim. Pelo medo que instalou. Pelo desconhecido que assusta. Pela distância a que obrigou. Por tudo o que trouxe. Mas também instalou a confusão, exatamente porque nos obrigou a abrandar um bocadinho. De repente, obrigou-nos a parar. A ficar. E parece que, de repente, ficámos sem saber muito bem onde morava o sentido de tudo. Porque, até então acreditámos, todos os dias, que o que fazia sentido era correr mais depressa do que o tempo. Sem ter tempo para parar. Para ficar. Para, simplesmente, estar.

É importante sorrirmos? Porquê?

É tão importante sorrirmos. Quantas vezes foi um sorriso que nos abraçou o coração? Quantas vezes foi um sorriso que nos tocou a alma? Quantas vezes foi um sorriso que nos mudou o dia? Quantas vezes foi um sorriso que nos salvou do dia? Quantas vezes? É tão importante sorrirmos. O nosso sorriso pode mesmo ser a melhor parte do dia de alguém. Tal como, muitas vezes, é a melhor parte do nosso dia. Quem diz um sorriso, diz um abraço, diz um gesto de amor. Mas sim, é tão importante sorrirmos.

Em que é que consiste o projeto, essencialmente?

O Tatuar Sorrisos consiste em deixar pedacinhos de amor por aí, escritos em post-its. São frases simples, que procuram ser expressão do quanto um gesto de amor pode mudar tudo. O Tatuar Sorrisos procura deixar um pedacinho de amor, de abraço, de sorriso, no dia de alguém, na vida de alguém, no coração de alguém. Escrito em post-its, deixados por aí. Começou no metro e depois passou a acompanhar-me sempre. Em espaços públicos, bancos de jardim, paragens de autocarro, onde for, por aí… Nunca mais me largou.

Acredita que, se todos déssemos um pouco mais de nós, o mundo seria um lugar diferente? Melhor?

Acredito muito nisso. Acredito em tatuar o mundo com amor. Acredito que, se todos fizéssemos um gesto pequenino de amor, no final, todos os gestos pequeninos juntos formariam um gesto gigante de amor. E, assim, o mundo só poderia ser um lugar diferente. E melhor.

Acredita que o amor pode mesmo mudar o mundo?

Acredito. Acredito que um abraço abriga. Acredito que as mãos dadas são força. Acredito que um olhar toca. Acredito que um sorriso dá vida. Acredito que um beijo cura. Acredito que o amor muda tudo. Acredito porque, no meio de tudo, só o amor é de acreditar. E, no meio de tudo, só o amor faz acreditar também. O amor acontece-nos todos os dias. E salva-nos de todos os dias.

A maior parte das pessoas não acredita? Porquê? Vivemos demasiado na ‘escuridão’?

Sei que há quem não acredite e não entenda. Sei que há, até, quem ache que acreditar é sinónimo de fragilidade, de ilusão. E, mesmo quem acredita, às vezes também duvida. Faz parte. Mas também sei que, quando duvidamos, há sempre um pedacinho de amor que chega para nos iluminar. Para nos despertar. Para nos fazer acreditar.

Ainda há muitas pessoas que acreditam. Mesmo que, às vezes, se esquecem. É por isso que é tão importante relembrar. Precisamos todos que um pedacinho de amor chegue, todos os dias, para nos iluminar. Para nos fazer acreditar. Para não nos deixar esquecer. Ou para nos relembrar, quando nos esquecemos.

Deixámos de acreditar, nós, adultos, que o mundo pode ser um lugar bonito?

Não sei se deixámos de acreditar… Porque há vezes em que nós vemos o mundo bonito. Nos momentos felizes, nos momentos em que temos e somos amor, geralmente vemos o mundo bonito. Nos momentos tristes, nos momentos em que nos falta amor, naturalmente não conseguimos ver o mundo bonito. Então, primeiro, talvez precisemos de aprender o que é que o mundo precisa para ser um lugar bonito. E, depois, talvez precisemos de sê-lo.

Deixámos a criança em nós ir embora, de certa forma…?

Muitos de nós, sim. Mas muitos de nós, ainda não. E ainda bem.

Tem tido um bom feedback do projeto?

Algum, sim.

No início, como tudo começou no metro, houve vezes em que tive a oportunidade de presenciar algumas reacções. Nessa altura, quando conseguia, colava um post-it junto à porta, logo ao entrar no metro, e depois tinha aquele tempo de viagem para poder ver o que acontecia. A maior parte das pessoas passava e não via. Não parava. Não reparava. Mas depois… Alguém que passava e via. Alguém que passava e via e parava para ler. Alguém que passava e via, parava para ler e sorria. Às vezes, uma ou outra fotografia. Outras vezes, levar o post-it consigo. E era aqui que eu sentia a magia a acontecer.

Agora já não é tanto assim e não tenho sempre feedback, porque a maior parte dos post-its são deixados de passagem, em diversos lugares, e depois não sei quem se cruza com eles, quem vê, quem não vê, e o que acontece a partir dali. Foi, também, por isso que criei a Página no Facebook. Para se alguém sentir essa vontade de dar feedback, de partilhar ou de conhecer mais, o possa fazer. Já recebi fotografias de quem encontrou. Já recebi mensagens a agradecer. Já houve, até, quem, mesmo nunca se tendo cruzado com um post-it, se tenha sentido tocada pelo projecto, a ponto de me enviar blocos de post-its, pelo correio, para que eles não me faltem.

E depois, claro, tenho as minhas pessoas, que acompanham de perto esta minha loucura bonita de “tatuar sorrisos” por aí, e a abraçam com a maior das ternuras.

O feedback que tenho tido tem sido sempre muito bonito. Tem-me abraçado sempre muito o coração.

Já mudou a vida de alguém que tenha conhecimento?

Há um momento que eu nunca esqueci. Foi há cerca de 2 anos. Foi no metro, mas desta vez não colei o post-it. Desta vez, ao contrário do habitual, entreguei-o em mãos. Eu cheguei e, no meio das pessoas que passavam, apressadas, vi-a. Ela estava sozinha, à minha frente e de costas para mim e, enquanto esperava, ia limpando as lágrimas que teimavam em cair. O metro chegou, entrámos e, durante a viagem, ela continuava a limpar as lágrimas. Quando a viagem chegou ao fim, saímos as duas e, ao sair, eu estendi-lhe um post-it. Ela hesitou, durante uns segundos, e depois aceitou-o. “O teu sorriso é a melhor parte do dia de alguém”, leu. Ela soltou um ligeiro sorriso. E eu segui o meu caminho de coração tão abraçado. Às vezes, um ligeiro sorriso de um coração que dói salva o nosso dia.

Eu não sei se mudou o dia ou a vida dela. Mas sei que mudou o meu dia. E tatuou a minha vida.

Lado B

Lado B

Há sempre um lado B, em tudo. Aquele que se apresenta invisível aos olhos, mas coerente à alma. Aquele que assume uma essência mais verdadeira, ainda que, muitas vezes, dura.

Neste que é Dia Internacional do Enfermeiro, mostramos-lhe a outra face da pandemia, pelos olhos de Marli Vitorino, enfermeira de Cuidados Intensivos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Os desabafos dos dias duros, expressou-os num caderno branco e transportou-os, depois, para um livro. ‘O Outro Lado da Pandemia’ alberga os medos, as tristezas, as angústias, mas também as vitórias desta luta maior que hoje conhecemos. Em formato poema e ilustração, o trabalho tem, ainda, direito a uma página no Facebook com o mesmo nome, bem como no Instagram.

A enfermeira Marli Vitorino

Falei com a enfermeira, hoje que se assinala o Dia Internacional do Enfermeiro, para a Luxwoman. A entrevista, aqui!

Como nasceu este livro e porquê?

Este projeto nasceu em março de 2020, onde o desenho surgiu como ‘refúgio’ nos primeiros dias de pandemia vivida enquanto enfermeira de Cuidados Intensivos, alguém que cuidava de pessoas com COVID-19, em estado grave. De um dia para outro, fomos desafiados a recolher os medos e a enfrentar as dificuldades que surgiram em catadupa, para fazermos aquilo que melhor sabemos: cuidar! Inicialmente, a permanência na zona vermelha e a adaptação aos equipamentos de proteção individual (EPI’s) testaram as capacidades ao limite, sentido uma necessidade emergente de procurar apaziguar o stress, o desconforto, a ansiedade, as dificuldades e os medos… Foi nesse momento que peguei numa caneta e numa folha de papel e comecei a desenhar o que via, para me tentar abstrair da sensação de sufoco! Após terminar, fixei o desenho no vidro da porta, que separava a zona vermelha da zona não contaminada, com o objetivo de encorajar os colegas que viriam a seguir. Do primeiro desenho, surgiu outro e mais outro, aparecendo, assim, a minha terapia em tempo de pandemia! Aos desenhos, juntam-se poemas que dão sentido às emoções e sentimentos vividos em cada situação, desvendando experiências de resiliência, resistência e superação que suportam esta batalha entre quem cuida e de quem é cuidado, desmistificando uma realidade, que poucos conhecessem, sobre aquilo que se vive para lá da porta dos Cuidados Intensivos!

A transição dos desenhos para as redes sociais foi quase intuitiva, surgindo como oportunidade de transmitir uma mensagem às famílias das pessoas de quem cuidava, uma vez que se encontram distanciadas pelo elevado risco de contágio. Incentivada por colegas e amigos, criei a página O Outro Lado da Pandemia no Facebook e no Instagram, onde partilho um pouco do dia-a-dia vivido na UCI, seja na minha perspetiva enquanto enfermeiro, como de um médico, assistente operacional, na até com base nas vivências da pessoa com COVID-19 e da sua família.

Um ano depois, desta arte traduzida em desenhos e dos poemas, resultou a concretização de um sonho, a publicação do livro: “O Outro Lado da Pandemia: o que se vive para lá dos Cuidados Intensivos”, como homenagem a todos os profissionais de saúde e pessoas com CODIV-19 que lutam diariamente contra esta pandemia.

Tem tido um feedback positivo do livro?

O feedback tem sido fantástico e muito gratificante! Tem sido uma oportunidade das pessoas conhecerem um pouco da realidade que se vive para lá de uma Unidade de Cuidados Intensivos e de desconstruir alguns mitos relacionados com a UCI, no sentido de não ser um serviço de fim de linha, mas de segundas oportunidades, em que o sucesso reside no espírito de equipa, na cumplicidade, na relação de ajuda e na vontade de nunca desistir por mais desafios que surjam! Com esta partilha de vivências. O feedback tem sido emocionante! Tenho recebido muitas mensagens de agradecimento por partilhar as experiências por que passamos, os desafios que superamos e a forma como lidamos com o sofrimento, mas, essencialmente, a partilha de testemunhos das pessoas cuidadas, daqueles que se ‘agarram’ e que lutam pela vida, independentemente das adversidades e dos contratempos! São verdadeiros exemplos que me fazem acreditar no impacto da força interior, no recomeçar, na importância das relações para ultrapassar as dificuldades e na inércia da simplicidade das coisas, em como pequenos gestos podem tornar o dia de quem é cuidado mais brilhante, transformando os momentos mais difíceis em experiências de resiliência, coragem e superação!

‘O Outro Lado da Pandemia’, €15, Chiado Editora

É enfermeira nos Cuidados Intensivos. É duro, o dia-a-dia? Como é um dia na UCI?

Os dias na UCI são uma constante aprendizagem e um constante desafio! O facto de cuidarmos na mira da imprevisibilidade, faz com que o planeamento e a priorização dos cuidados seja fundamental! O ambiente na UCI é sempre vivido na iminência do risco, na identificação de sinais de alerta, na vigilância constante e na exposição de muitas necessidades em simultâneo, o que se torna muito exigente e desafiante! Entre o alarme de uma seringa que nos alerta que a medicação está prestes a terminar (o que pode colocar a vida da pessoa em risco), um colega que nos chama, uma campainha que ressoa, uma pessoa que está ventilada tosse, observando-se secreções no tubo que a ajuda a respirar, sabendo que nos temos de apressar a aspirar que para não obstrua, um monitor que nos alerta que a tensão arterial de outra pessoa está elevada porque está assustada… Este é um pequeno cenário característico da corrida contra o tempo de quem cuida numa UCI!

Depois, há sempre cuidados que são prestados de forma rotineira, como a prestação de cuidados de higiene e a alternância de posicionamentos! Mas até num simples procedimento como esses, é importante avaliar minuciosamente a pessoa que cuidamos, ponderar se tem estabilidade hemodinâmica para os cuidados de higiene ou se esse esforço adicional vão comprometer todo o processo evolutivo por exaustão respiratória. Para além dos cuidados mais simples, o dia na UCI é gerido consoante as necessidades das pessoas internadas, de sinais de agravamento que motivem a realização de procedimentos de urgência, da realização de um transporte fora da unidade, por necessidade de se fazer um exame complementar de diagnóstico, etc.

Face à ‘rotina’ típica da UCI, acrescenta-se esta realidade inerente a esta pandemia, cuja exigência nos forçou a agir e a adotar estratégias de cuidados de forma rápida, segura e eficiente. Os dias são cansativos e muito, muito exigentes, tendo em conta a elevada complexidade dos cuidados e responsabilidade, no sentido em que tudo o que fazemos tem impacto na evolução da situação clínica de cada pessoa.

Psicologicamente, como fica, depois de um dia na UCI?

Há dias muitos desgastantes, pela exigência constante e pelo sentido de responsabilidade que é necessária na prestação de cuidados. Por outro lado, apesar de estarmos como enfermeiros, não deixamos de carregar a nossa bagagem pessoal, os nossos medos, dúvidas e preocupações, o stress, o sentido de responsabilidade, o risco de sermos infetados e/ou infetar os que vivem diariamente connosco.

Os dias de luta, geralmente, são longos para quem é admitido na UCI, testando todas as suas capacidades de resistência física e psicológica. O que por sua vez, se torna mentalmente exigente para quem cuida, também! É uma luta compartilhada e desafiante para quem cuida e para quem é cuidado; mas, sair com a sensação de dever cumprido, no sentido de que tudo fizemos para cuidar da melhor possível, faz com que seja um cansaço mais saudável, que nos liberta a mente para nos dedicarmos à vida pessoal, após fechar a porta da Unidade. No entanto, a ‘receita’ nem sempre é fácil de colocar em prática e há situações particularmente marcantes, que não são fáceis de me desprender e de deixar de me preocupar com quem está lá dentro, mesmo depois de terminar o turno.

Fisicamente, é exaustivo?

Enfermagem, por si, já é uma profissão muito exigente fisicamente, juntando-se, depois, o facto de trabalhar numa UCI, em que pela condição clínica instável da pessoa e pelo seu grau de dependência elevado. Geralmente, devido ao internamento prolongado, a pessoa internada na UCI perde muito peso e força muscular, necessitando de ajuda para muitas atividades, como mobilização na cama, ajuda na higiene, a levantar-se, a comer, a vestir-se, a pentear-se, a lavar os dentes, aumentando ainda mais a exaustão física dos profissionais de saúde.

Se acrescentarmos o desconforto e o desgaste físico relacionado com a utilização permanente de equipamentos de proteção individual para prestar cuidados a estas pessoas são claramente das maiores dificuldades no dia-a-dia. A utilização destes equipamentos exige um cumprimento de precauções obrigatórias e indispensáveis para a nossa segurança, de forma a evitar o risco de sermos contaminados. Como tal, os equipamentos são vestidos e despidos por uma ordem específica, intercalados por vários momentos de desinfeção das mãos. Antes de entrarmos, temos de nos certificar que estamos bem equipados, com a máscara devidamente selada, de modo a evitar ao máximo as fugas de ar. Para que tal aconteça, temos de a ajustar à cara, o que acaba por se tornar desconfortável, por sentirmos a máscara apertada e a provocar zonas de pressão no nariz e nas orelhas. Ao fim de duas-três horas de utilização, a dificuldade em respirar e as dores de cabeça manifestam-se, e a pressão dos óculos sobre as orelhas chega a tornar-se insuportável. Com o aumento da temperatura atmosférica, na Primavera e nos Verão, a utilização dos fatos torna-se insuportável pelo calor que causam, provocando, em determinadas situações, sensação de mau estar, náuseas, tonturas, sendo ainda mais difícil tolerar o tempo na zona vermelha.

Como se consegue lidar com a morte, diariamente?

Lidar com a morte é um processo duro e complexo, não se consegue criar uma ‘barreira’ imune ao sofrimento da pessoa ou à perda. Desenvolvemos, sim, a capacidade de sermos empáticos, de nos colocarmos no lugar do outro, tentando compreender a perspetiva da pessoa e da família, estando o mais presente e disponível possível. Cabe-nos o desafio de adaptar o cuidar às suas caraterísticas e necessidades, mesmo em fim de vida! Há situações que nos são particularmente sensíveis e tentamos, da forma como podemos, aliviar o seu sofrimento, através de medidas farmacológicas e não farmacológicas ou simplesmente acompanhando a pessoa num dos momentos mais difíceis.

Em situações súbitas e inesperadas, pode ser difícil lidar com a perda, pelo sentimento de impotência, de tristeza, de insucesso. Nestas situações, é essencial a comunicação e o apoio da equipa, com a qual desabafamos aquilo que sentimos e partilhamos perspetivas ou estratégias que nos ajudam a ultrapassar a situação. Quando a pessoa tem um prognóstico reservado e estamos cientes que o tratamento pode não ser o curativo, o papel do enfermeiro centra-se, sobretudo, em dar o melhor conforto possível e em preservar a dignidade da pessoa, promovendo a proximidade da família, tendo em conta as limitações inerentes às restrições de visitas. Apesar de muito exigente, a disponibilidade e o suporte emocional à família também é extremamente importante. É das áreas mais difíceis, mas também das mais gratificantes, pois, frequentemente, somos nós, enfermeiros, que ajudamos a família a despedir-se e a encontrar estratégias para superar o luto e para readaptar os seus papeis familiares.

Tem algum ‘escape’ psicológico? Qual?

Os ‘escapes’ que tenho para gerir o stress inerente ao contexto profissional são, essencialmente, o exercício físico, um ritual que não abdico. Efetivamente, não o pratico com a mesma frequência fazia que antes da pandemia, contudo é essencial para o meu equilíbrio e bem-estar físico, mental e emocional.

Sem dúvida que o desenho tem sido uma terapia para mim, desde março de 2020. Além de desenhar, também gosto de escrever. Gosto de tirar partido da sensação de ‘ser chamada’ a escrever, a refletir sobre coisas do dia-a-dia, a expressar as emoções vividas, a retribuir e reconhecer o trabalho em equipa, a retratar e a ‘digerir’ os sentimentos relacionados com situações que, de alguma forma, foram marcantes.

Nos dias de sol, gosto de fazer caminhas, ir até à praia, ou, simplesmente, sentar-me num banco de jardim, fechar os olhos e desfrutar do som da natureza. Nos dias cinzentos, gosto de fazer trabalhos manuais ou de me sentar no sofá, ver um filme e relaxar!

E durante a pandemia, tem sido mais difícil? Porquê?

Efetivamente, as saudades têm sido o mais difícil de gerir. Custa-me estar longe da minha família alargada, dos meus amigos e das minhas rotinas sociais. De combinar uma jantarada e estarmos, tranquilamente, a desfrutar da companhia uns dos outros. Apesar do distanciamento social, o carinho e a união tornaram-se ainda mais fortes.

As pessoas hoje olham para os enfermeiros como heróis. Não o faziam antes? Os enfermeiros eram, de certa forma, ‘esquecidos’?

Não considero que sejamos heróis, mas acredito que a sociedade comece a olhar para os enfermeiros como uma classe de profissionais que tem um sentido de responsabilidade muito grande e que são verdadeiros aliados de quem cuidam, do primeiro ao último segundo, atenta a todas as necessidades sejam elas físicas, psicológicas, religiosas, familiares, económicas ou sociais!

Acredito que esta pandemia tenha ajudado os portugueses a refletir sobre o verdadeiro papel do enfermeiro, sobre quem está em todas as horas e circunstâncias pronto a ajudar o outro, mesmo que isso implique deixarmos os que amamos para cuidar de alguém que nem conhecemos. No entanto, para lá da perceção mais sensível do nosso trabalho, existe um longo percurso de luta pelo reconhecimento e valorização profissional, pelos direitos e proteção que não temos, como a falta de progressão de carreira e reconhecimento de profissão de risco por todas as adversidades que vivemos, não só em tempo de pandemia, mas inerentes à nossa profissão.

Porque escolheu ser enfermeira?

Como costumo dizer, acho que nasci a querer ser enfermeira. Recordo-me de frequentar a escola primária e de, certo dia, uma amiga cair e fazer uma ferida num joelho. Com sete anos, na altura, senti-me muito corajosa em querer ajudar e tentar fazer-lhe um penso para tratar a ferida. Nesse dia, quando cheguei a casa, perguntei à minha mãe quem é que cuidava das pessoas quando elas não se sentiam bem e ela respondeu que eram os enfermeiros. Então, desde essa altura, que a paixão surgiu, permanecendo até aos dias de hoje. Mais do que uma profissão, é senti-la como vocação, um desejo inato de querer ajudar os que me rodeiam!

É preciso paixão pela profissão? Porquê?

Quando trabalhamos com paixão, não há a sensação de simplesmente ter de trabalhar. É ter o privilégio de fazer o que dá prazer, do que verdadeiramente se gosta, todos os dias! Ser enfermeiro é uma profissão muito exigente e desgastante, física e psicologicamente, mas se for feito com dedicação, com entrega, com paixão, a forma como se lida com os desafios do dia-a-dia é complemente diferente! Ainda que haja dias difíceis e stressantes, há sempre a âncora da vocação que, mesmo cansada, me faz lutar por procurar melhorar o dia da pessoa que cuido, em função de lhe proporcionar tudo o que estiver ao meu alcance para minimizar o seu sofrimento, a sua solidão, tristeza ou desânimo! E é tão, mas tão gratificante, quando vemos aquele brilho no olhar timidamente a rejuvenescer, o quando se rasga um sorriso porque foi o primeiro dia que se levantou para o cadeirão e passou a ver “um mundo na vertical”, como costumo dizer! Ou quando, simplesmente, a família traz uns ténis e proporcionamos, finalmente, aquela sensação de calçar uns ténis de corrida e estar de pé. São pequenos gestos que reanimam as forças que, muitas vezes, estão camufladas com inseguranças e medos, de quem perdeu a esperança ao ser atingindo de uma forma tão grave e limitante consequente da doença.

O que é ser-se um bom enfermeiro?

Ser bom enfermeiro é conjugar as competências técnico-científicas: o conhecimento, o saber, com o saber ser e estar, inerente às competências relacionais e humanas! Para ser bom enfermeiro, essencialmente é necessário estar com a pessoa cuidada, escutá-la, sair da rotina, ir para além do espectável, da rotina standartizada, da monitorização dos sinais vitais e da vigilância de sinais de alerta, que também é fundamental! É sair da zona de conforto e deixarmo-nos surpreender com a individualidade de cada pessoa, é conhecer as suas preferências, necessidades, preocupações, dúvidas e medos! Mais do que a competência técnica e a capacidade de executar tarefas, é intersetar os conhecimentos científicos com a individualidade de cada pessoa e adotar a melhor atitude e as melhores estratégias terapêuticas para uma prestação de cuidados segurança, efetiva e de qualidade.

Os hospitais portugueses e o serviço nacional de saúde… estão mais fortes hoje, depois desta pandemia?

Trabalhar tantas horas seguidas num ambiente condicionado e, por vezes, hostil e stressante não é fácil… É muito exigente e cansativo, mas, acima de tudo, fazemo-lo com zelo por quem cuidamos, com dedicação e com sentido de missão. Apesar de todas as dificuldades, estamos sempre lá. Gostava que os portugueses continuassem a confiar no nosso trabalho e a reconhecer o nosso esforço diário em cuidar da melhor forma possível de cada pessoa como um ser único, com as suas características, dificuldades e capacidades. Que não se esqueçam que, apesar de ainda não poderem visitar os seus familiares, que não nos esquecemos de cada família. Apesar de não a conhecermos, sensibiliza-nos o seu sofrimento e medo do desconhecido.

Respondendo à pergunta: acredito que sim, uma vez que se tem unido muitos esforços para conseguir dar respostas às necessidades identificadas. Contudo, continuo a defender que uma das maiores aprendizagens se centra na identificação de problemas e no planeamento atempado de soluções, de forma a evitar a reincidência de casos de forma descontrolada. Planear significa, não só delinear um plano de atuação a nível hospitalar e de comunidade, mas também noutras frentes, como na sensibilização para o problema e na implementação de medidas de precaução, de um desconfinamento progressivo, planeamento de vacinação em massa… todos têm de trabalhar para o mesmo foco, seja na prevenção, no tratamento da COVID-19, como no pós-doença, em que tantas pessoas continuam a necessitar de recursos e ajuda para a sua recuperação efetiva! É um dever cívico de cada pessoa contribuir para a resolução deste problema, mas parte do exemplo e da coerência na tomada de decisão e comportamento das figuras de referência como chefes de estado, representantes da gestão da saúde, profissionais de saúde, etc. Neste sentido, pela experiência após vários picos da pandemia, por conhecermos um pouco melhor a expressão desta doença e pela atuação do plano de vacinação, sinto que estamos mais fortes e mais detentores de conhecimento que nos ajudará a retomar alguma normalidade das nossas rotinas do quotidiano, mas sempre cientes na necessidade de zelo e de medidas de precaução!

E a Marli, como está, psicologicamente? Mais forte? É hoje uma pessoa diferente?

Face às experiências desafiantes e enriquecedoras vividas ao longo desta pandemia, sinto que cresci muito a nível pessoa e profissional! Estou uma pessoa diferente, que valoriza mais o amor próprio, a estabilidade emocional, as relações, o tempo em família, os afetos e as segundas oportunidades!

Estas aprendizagens nutrem, também e cada vez mais, esta paixão de ser enfermeira como uma oportunidade de abraçar novos desafios a cada dia que passa, numa relação extraordinária que se estabelece com quem se cuida, cheia de aprendizagens, partilhas, conhecimentos, experiências, de sorrisos e de lágrimas, de momentos alegres, outros difíceis e sempre desafiantes!

Uma realidade jamais imaginada que me forçou a refletir sobre a importância da readaptação face aos desafios e necessidades e sobre a essência do cuidar com humanidade, que pressupõe ingredientes essenciais como o espírito de equipa, a comunicação, o respeito e o companheirismo!

Essencialmente, esta pandemia tem-me ajudado, sobretudo, a ser mais humana, mais enfermeira, valorizando o que realmente importa na vida, as relações humanas, os afetos, a proximidade… sobre a cumplicidade e a relação de ajuda que fazem com que as pequenas coisas tornem o dia de quem é cuidado mais brilhante, transformando os momentos mais difíceis em experiências de resiliência, coragem e superação!

Algum dia pensou que teria de lidar com um ‘tsunami’ destes..?

Não, nunca pensei que vivêssemos uma situação desta, muito menos tão prolongada no tempo! Ao fim de meses a fio a cuidar de pessoas com COVID-19, nas mesmas circunstâncias, a exaustão e o cansaço tornam-se cada vez mais evidentes, sobre a necessidade de descanso efetivo há muito desejado, exacerbando-se, particularmente, com o aumento descontrolado de casos face à escassez de recursos do Sistema Nacional de Saúde. Aos sinais de cansaço, por vezes, juntam-se, também, sentimentos de frustração, quando a sede de quebrar as medidas de precaução falam mais alto, por parte de pessoas com ideias deturpadas desta pandemia rotulada como uma ‘simples gripe’.

Houve um dia particularmente difícil? Porquê? O que aconteceu?

O facto de se tratar de uma doença altamente contagiosa, a restrição do contacto do doente com a família é das situações mais difíceis. No entanto, apesar de não poderem visitar, as famílias são informadas diariamente do estado clínico do seu familiar, tentamos transmitir as suas mensagens aos doentes e, sempre que possível, utilizamos recursos tecnológicos para estabelecer a ligação, como a realização de videochamadas. De facto, quando recebem notícias das suas famílias, ficam mais tranquilos e ganham mais força para ultrapassar as dificuldades do dia.

Quanto a situações específicas, houve uma particularmente difícil, um doente com 85 anos que não resistiu após várias medidas de tratamento. O senhor decidiu que não queria mais medidas invasivas que lhe causassem sofrimento, estava exausto de lutar contra a doença, apenas queria ver a sua família e morrer com dignidade e sem sofrimento. Esta situação marcou porque foi um doente com o qual estabeleci uma empatia imediata pela sua forma de encarar as dificuldades, pelo seu temperamento divertido que, apesar do cansaço, estava sempre pronto para contar mais uma história da sua longa vida! Consegui ter força para animar todos os que o rodeavam, até mesmo nos últimos momentos da sua vida, em que ainda nos chamava e carinhosamente nos pegava na mão e acariciava, até adormecer. Outra situação particularmente difícil relaciona-se com uma senhora que tinha acabado de ser mãe, mas o seu estado clínico agravou, forçando-a a ser transferida para a UCI. Quando acordou do coma, para além de ser difícil compreender tudo o que lhe tinha acontecido, sentir que faltava algo do seu ventre foi um momento de grande ansiedade, o qual tentamos gerir da melhor forma possível! Ao longo do tempo, houve a possibilidade de realizar uma videochamada para ver o bebé, e foi um momento emocionalmente arrebatador!

Alguma história que gostasse de partilhar, para além dessas duas?

Existem muitas histórias marcantes, recordo-me do primeiro doente quando retirámos o tubo que o ajudava a respirar através do ventilador. Sensibilizou-me, primeiramente, a forma como nos compreendia e nos distinguia pelo nome. Apesar de nos apresentarmos sempre que prestamos cuidados, não é fácil decifrar quem está por baixo de um fato igual a todos os outros que estão na sala. Contudo, ele distinguia-nos pelo timbre da voz, pela atitude, pelo comportamento e pela forma de falar, confiando no nosso trabalho. A segunda coisa que me marcou nesta situação, foram as primeiras palavras que nos disse. Com os olhos mergulhados em lágrimas afirmou: “obrigada, muito obrigada”.

Outra situação marcante relaciona-se com o corresponder às necessidades culturais e religiosas de cada pessoa, neste caso a concretização do batismo de um doente na zona vermelha. Ameaçado pelo prognóstico reservado que apresentava, foi manifestado pelo doente e pela família a vontade de ser batizado! Chamámos o capelão e, ali mesmo, o senhor foi batizado!

Outra situação relaciona-se com a admissão de uma pessoa com leucemia aguda e COVID-19, que deu entrada na UCI com prognóstico muito reservado e em coma induzido. Teve dias e semanas em coma induzido pela vulnerabilidade e instabilidade hemodinâmica, contudo perdi a conta às vezes em que me questionei sobre quem era aquela pessoa de quem cuidava e tanta esperança me transmitia?! Tantas pessoas que já cuidei, tantos rostos que já conheci, tantas lágrimas e sorrisos que já partilhei, como podia ser, alguém que nem tive a oportunidade de conhecer acordado, transmitir-me tanta serenidade e esperança?! Ao fim de longos dias de luta, aquela áurea de esperança permanecia intacta e, finalmente, os tempos de bonança começaram a surgir. Após sair do coma, confirmei aquilo que senti desde o primeiro instante, que se conjugava com a sua maneira otimista e sedenta de viver a vida. Foi uma grande aprendizagem para mim, quantas vezes andamos rabugentos, a reclamar por tudo e por nada, parecendo que nada corre bem, sem motivos concretos para nos queixarmos… e contra todas as adversidades e obstáculos, conseguiu ver o lado positivo e viver cada oportunidade com esperança e coragem, preservando o segredo de acreditar na força inspiradora para superar o que der e vier!

Como vai ficar o mundo depois disto?

Apesar das sequelas a vários níveis consequentes desta pandemia, seja nível económico, emocional, psicológico e físico, espero que fique um mundo melhor! Quando falamos em pandemia, normalmente associamos a um caráter mais negativo, mais ‘pesado’, mas há um lado positivo deste ‘Outro Lado da Pandemia’, no sentido de refletir sobre o que aprendemos: que partido é que tiramos da pandemia? Espero que seja um mundo melhor, mais tolerante e responsável, consciente de que o comportamento de uma pessoa, que influencia o comportamento de outra e que a responsabilidade de zelar por mundo melhor depende precisamente de cada um de nós! Espero que com esta pandemia, o facto das pessoas estarem mais restritas daquilo que gostam, passem a dar mais valor ao que realmente lhes é importante, e compreendam o impacto das relações humanas nas suas vidas, bem como a necessidade de cultivar afetos, de cultivar o amor próprio e a capacidade de aceitar os desafios que possam surgir, sem nunca desistir por mais difíceis que possam parecer!

Ser altruísta

Ser altruísta

Quanto custa colocarmo-nos na pele do outro? E, se em vez de ajudarmos, ensinarmos a fazer? É esta a proposta de Susana Garrett Pinto com o projeto TEACH How to Fish: capacitar para ajudar.

O mundo faz-se de pessoas diferentes. Dos fortes, mas também dos mais vulneráveis. Dos que conseguem ultrapassar obstáculos, mas também dos que, por circunstâncias da própria vida, não o conseguem sozinhos. Susana Garrett surge aqui, no limbo entre um mundo e o outro. Lutar pelos direitos das comunidades mais pobres e mais vulneráveis é mais do que uma missão de vida, é uma vontade intrínseca à sua própria existência.

Nascida no seio de uma família humilde e natural de Lisboa, passou a infância em Almada. Amor verdadeiro foi sempre aquele que lhe encheu a alma. “Vi nos meus pais e avós a beleza e o exemplo do amor verdadeiro, desinteressado e da permanente atenção pelos mais frágeis”, refere. Terminou o curso de publicidade com 21 anos e, com apenas 26, decidiu ir mais longe. Escolheu a Índia para fazer serviço de voluntariado. O sentimento com que ficou foi suficiente para não querer mais parar.

É a servir de ponte entre as instituições e comunidades carenciadas que se sente feliz. TEACH How to Fish foi o projeto que criou para o efeito.

Atualmente, trabalha como business developer numa fintech, a HiPay, dedicando-se ao projeto de forma voluntária, mas com um objetivo em mente: “O meu desejo é o de replicar o projeto onde for útil e necessário, sendo que, a curto prazo, pretendo começar na Índia e Marrocos”, diz.

A Susana deu o seu Testemunho na edição de maio da Luxwoman e agora aqui!

Como surgiu o TEACH How to Fish e porquê?

O TEACH How to Fish (THF) nasceu da minha enorme vontade de servir as crianças e as comunidades mais pobres e vulneráveis, do meu sentido de missão, mas também da convicção que tenho em mim de que, se quisermos mesmo, unidos conseguiremos mudar o rumo das coisas.

O projeto surge após a minha terceira experiência internacional como voluntária, desta vez no Camboja, através da qual percebi que o caminho do assistencialismo não é a solução para por fim à pobreza. Numa das aldeias que visitei, no meio de todas as crianças, estava uma menina de olhar triste e sem brilho, a Choovy, que me deixou um grito silencioso no coração. Numa demonstração de higiene, lavagem de cabeça e dentes, quando a escolhi, percebi como toda a sua expressão mudava. Mas foi quando lhe passei as toalhitas de bebé perfumadas e a penteei que vi toda a sua postura mudar. Penso que se sentiu notada e cuidada com carinho. Adicionalmente – e num enorme sentimento de impotência por perceber que aqueles momentos que estava a viver me preenchiam de uma sensação única, mas que, na verdade, nada sabia de cada uma daquelas crianças e das suas famílias, quais as suas dificuldades e vontades -, acabei por questionar, em permanência, quais os efeitos reais na vida de cada uma das pessoas com quem me cruzava. Com base numa conversa que tive com um monge local, em que me disse que a solução para ajudar passaria, sempre, por ensinar a pescar e pela capacitação, regressada a Portugal, comecei a pensar em formas de ajudar aquela menina. Percebi que o caminho deveria ser percorrido com foco na capacitação e, mesmo que focada nela, deveria iniciar o trabalho com a sua família. Acabei, na verdade, por começar o projeto na aldeia desta menina com toda a comunidade.

Em que consiste o projeto, em concreto? Como funciona?

O TEACH How to Fish é um projeto social, criado com o objetivo de capacitar e tornar autónomas as pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade e exclusão social, através do seu próprio potencial, por forma a por fim ao ciclo de pobreza em que vivem e à necessidade de caridade. Pretendo transformar a dependência de caridade em autossuficiência.

O Projeto divide-se em duas áreas de atuação: com as crianças, que são o futuro e o nosso foco e, consequentemente, com as suas famílias ou cuidadores e com os adultos em situação de pobreza. O projeto pretende garantir que as crianças terão sempre acesso a alimentação saudável, educação e cuidados básicos de higiene e saúde. Mas a nossa missão é, também, capacitar adultos, através de formação, suporte e acompanhamento, até que estejam totalmente autónomos. Trabalhamos cinco áreas distintas: Habitação, Alimentação, Saúde, Educação ou Formação e Emprego. Definimos estratégias em 2 fases, ‘dando o peixe’ (assistencialismo) e ‘ensinando a pescar’ (capacitação).

Criámos, em dezembro de 2020, o Programa de Suporte à Educação com um parceiro local, o Veasna, em que o objetivo é evitar o abandono escolar e estimular e capacitar crianças e jovens em situação de pobreza e vulnerabilidade. Já temos cinco crianças ao abrigo do programa. É garantida a ponte com os cuidadores das crianças, a alimentação e o material escolar, para além do acompanhamento diário em regime de ATL.


Para além disso, cooperamos com empresas, entidades locais e associações sempre que se verifique ser útil para servir as comunidades carenciadas, e criamos ou adaptamos a Portugal vários programas que possam privilegiar a economia social, como, por exemplo, o conceito de ‘Café Partilhado’, onde podemos deixar um café ou outro bem pago num estabelecimento para que o mesmo seja, depois, pedido e cedido a quem necessitar. Desta forma, para além de termos a oportunidade de participar no processo e de contribuir, ainda aliviamos essa responsabilidade e despesa aos proprietários nesta fase tão complexa.

A Susana viveu grande parte da sua infância com os seus avós. Que recordações guarda desses tempos?

Sim, pela diferença de apenas treze meses que tenho entre mim e o meu irmão mais novo e dada a proximidade, porque também viviam no concelho de Almada, os meus avós maternos foram um apoio fundamental aos meus pais. Depois, sempre gostei de estar também junto dos meus avós paternos na Horta do Douro, uma aldeia pequenina perto de Vila Nova de Foz Côa.

Sou muito sensível a tudo, vivo em empatia e, muitas vezes, sou uma verdadeira esponja de tudo o que me rodeia, não é algo, para mim, opcional. A minha família tem origens muito humildes, os meus pais tiveram, muito cedo, de começar a trabalhar para ajudar os meus avós. Sentia, sempre, que não havia mais; sentia os muitos esforços financeiros de todos os meses… Mas a grandiosidade do amor profundo que nutriam por nós e com o qual queriam permitir-nos a oportunidade de aceder às ferramentas que nos poderiam trazer um futuro melhor, foi algo essencial. Sempre vi, em todos eles, compaixão, uma enorme vontade da partilha – ainda que, muitas vezes, eles próprios com privações – e um respeito igual por todos, independentemente da classe social, raça ou religião.


Mas só posso sentir-me grata por todas as experiências que vivi com todos eles, tive uma infância muito feliz, repleta de amor, alegria e ensinamentos.


Algumas lembranças que, por vezes, vou buscar para voltar a eles e aos nossos momentos são, por exemplo, recordar-me de ir com a minha avó Mariana ao mercado – adorava! – e de toda a gente a cumprimentar, algo que, hoje em dia, vejo que acontece comigo em todo o lado, segundo diz o meu marido. Ela tinha muito sentido de humor e despertava sempre sorrisos e boa disposição. Recordo-me, também, do meu avô José Luis se sentar a desenhar para eu ver e aprender ou de o ver fazer os barquinhos de madeira na pequena marquise de casa. Recordo-me da minha avó Irene me levar ao tanque da aldeia para lavarmos roupa, daquele cheiro a sabão e de como eu admirava os quilos que ela conseguia carregar, sempre no cimo da sua cabeça. E do meu avô Colimério, que, com uma enorme paciência, montava todos os netos na égua para irmos ‘ao lugar’, onde tinham um terreno de cultivo.

Com uns ou com outros, vivi, também, muitas experiências e partilhas com outras crianças com enormes privações e tudo ia ficando guardado em mim. Na horta, recordo-me da Ritinha e do Jorge, que viviam num espaço igual às casas que encontro hoje no Camboja: sem divisões, sem saneamento, sem mobília, não tinham absolutamente nada, estes meus amigos… e tudo aquilo fazia-me doer o coração.

O que de melhor aprendeu com eles?

Aprendi o que é o amor puro, verdadeiro e desinteressado. Aprendi a respeitar muito todos os outros por igual e a evitar preconceitos. E, também, a imensa beleza e a força da humildade, da verdade e da compaixão.

A infância na presença dos avós é sempre melhor?

Naturalmente, dependerá, mas eu não consigo imaginar como teria sido a minha infância e a minha adolescência sem os meus avós. Foi um enorme privilégio.

Estamos a privar a nossa geração (os nossos filhos e sobrinhos) desse contacto com os avós, fruto da pandemia. Que sequelas ficarão disto?

O que mais me custa, o que me dói profundamente, é saber que estamos a perder tempo precioso de partilhas e histórias em conjunto. Muitas vezes, partilhei a minha tristeza com as novas gerações por ver que os dispositivos móveis se sobrepunham à escuta activa, à curiosidade e à partilha. Considero que as partilhas, as histórias e experiências que os avós transmitem são extremamente enriquecedoras. São as nossas origens, as memórias de família, o valor de exemplo, é como se também fosse parte do nosso ADN. Depois, os afectos são fundamentais para todos e, infelizmente, penso que ficaremos com algumas feridas emocionais, ainda que todos saibamos que amar atualmente passa por proteger de outra forma.

É formada em publicidade mas acabou por seguir o caminho do voluntariado e da solidariedade. O que a fez seguir esse caminho?

Nasci no seio de uma família humilde, vi, nos meus pais e avós, a beleza e o exemplo do amor verdadeiro, desinteressado e da permanente atenção pelos mais frágeis. Terminei o curso com 21 anos e, aos 23, decidi que queria fazer voluntariado internacional, na Índia. Comecei a trabalhar para concretizar esta vontade.

Não sabia, de todo, nesta altura que viria a chegar ao projeto TEACH How to Fish, muito menos como iria avançar, mas sempre senti uma enorme vontade e um grande apelo para colocar os meus dons ao serviço dos mais carenciados. Deixei o trabalho em publicidade precisamente no ano em que criei o projeto, há seis anos, mas não para me dedicar por inteiro. Trabalho como business developer numa fintech, a HiPay, enquanto me dedico, para já, voluntariamente ao projeto, também no sentido de o transformar num modelo de empresa social sustentável.

Acredita que o projeto TEACH How to Fish é inovador, no sentido em que fornece as ferramentas e não o produto final?

Na verdade, na primeira fase de trabalho no THF – e sempre que se verifique essa necessidade e falta de respostas – começamos, sempre, por dar reposta a necessidades básicas (alimentação, habitação, furos e filtros de água, saúde, entre outros). Mas, sempre, trabalhando em paralelo no caminho para o acesso à educação, bem como na formação e na criação de negócios ou procura de postos de trabalho. Efetivamente, sei que este processo é novo, desafiante e sei que, por isso mesmo, também muito ambicioso, por incluir a capacitação e, no caso dos adultos, também o empreendedorismo e a empregabilidade.

Por outro lado, se virmos em Portugal, ainda não temos um modelo jurídico validado para Projeto Social ou Empresa Social que é, a meu ver, a única forma de garantir sustentabilidade. O objectivo maior do TEACH How to Fish é transformar a dependência de caridade em autossuficiência. Como poderia fazê-lo com um modelo como, por exemplo, o de associação, em que o próprio está dependente de caridade e donativos?

Deviam existir mais associações e organizações deste género?

Do meu ponto de vista, sim, devíamos repensar toda a forma como somos solidários, como se faz caridade, e termos a humildade de compreender que, apenas afinando e mudando comportamentos e ações, alcançaremos resultados diferentes.

Porque razão não há?

Creio que todos os modelos, independentemente da área, devem ser questionados e recomeçados tantas vezes quantas se verifique necessário, até responderem, de forma positiva, ao seu propósito de criação. Mas toda esta transformação obriga-nos a sair da chamada ‘zona de conforto’, dá um trabalho incrível, não permite resultados rápidos e exige a permanente medição de impacto, que é outro factor que continua, a meu ver erradamente, a ser desvalorizado em Portugal. São estas as principais razões que considero existirem.

O que sentia, sempre que ia em missão de voluntariado?

Antes de ter criado o Projeto THF, sentia sempre uma enorme alegria e gratidão pela oportunidade que a vida me dava de poder ali estar a partilhar algo. Mas, quando regressava, tinha sempre a sensação de que tinha feito muito pouco. Depois, confesso que, através do projeto – e por saber que estamos a construir algo para o futuro – mantenho a alegria e o sentimento de gratidão por poder ser, em permanência, criadora de pontes. Esta sensação de ser uma ponte entre todos é para mim extremamente gratificante, uma bênção enorme.

Alguma história particular que a tenha marcado?

Na minha primeira viagem internacional como voluntária, à Índia, em 2006, estive num orfanato de rapazes. Dois meninos seguiam o momento em que abria e desfazia a minha mala. Tirei as rodelas de algodão e, como eles se manifestaram com alguma surpresa e risadinhas, tirei duas rodelinhas da embalagem, passei no meu rosto e, depois, no rosto de cada um como que, num gesto de carinho e dei-lhes. No meu último dia, antes de regressar, não queria acreditar: tinham ambos a sua rodelinha guardada e, para me mostrarem, passaram no seu rosto fechando os olhos e voltaram a guardar.


A história da pequena Choovy foi também particular, foi efetivamente determinante para esta mudança de direção, ela representa, para mim, todas as crianças que, como ela, vivem em pobreza extrema. A Choovy é a irmã mais velha de quatro, tem atualmente 11 anos, frequenta a escola, apoia os irmãos na escola e tem, ainda, apoio extra-escolar em inglês e informática, na escola pública e com o total apoio de uma amiga minha e professora local.
Sei que as crianças de hoje serão os jovens líderes do futuro e confio que a semente dará bons frutos e todos eles irão replicar estas muitas experiências que temos partilhado.

Qual tem sido o feedback do projeto TEACH How to Fish desde a sua criação?

Creio que o feedback tem sido muito positivo. O projeto é desafiador e ambicioso, tem uma abordagem diferente e creio que isso é, também, o que desperta mais interesse. Eu acredito muito nas parcerias e na cooperação para o desenvolvimento, sou a tal ponte que liga todos, e também acabo, naturalmente, por apelar e estimular, em cada um, a vontade de se dar e trabalhar para o bem comum.

Acredita que, de alguma forma, o mundo seria um lugar diferente se todos dispensássemos tempo nosso para ajudar quem precisa? Nem que seja, precisamente, ensinar a quem nos é próximo e não tem capacidade de aprender sozinho?

Sim, acredito. Todos temos, em nós, uma valência, uma força ou um conhecimento que deve ser colocado ao serviço de todos quantos não tenham tido a oportunidade que nos foi dada para adquiri-lo.

É difícil mudar vidas? Porque razão?

Na minha perspetiva, é difícil mudar vidas por duas razões: a primeira, porque tentamos ajustar realidades e vidas num formato fechado e sem escutarmos as vontades e as necessidades das pessoas que estão em situação de vulnerabilidade e de pobreza. A segunda, porque tentamos mudar pessoas e, normalmente, fazemo-lo de acordo com os nossos valores, gostos, visão e, até, conveniências.
Resumindo, acreditar que mudamos a vida de alguém porque nos sentimos bem e úteis é uma crença, já, de alguma forma, banalizada, mas, a meu ver, profundamente egoísta e que, claramente, bloqueia todo o processo de transformação.

Em que países se encontra, neste momento, o projeto?

Atualmente o projeto é trabalhado em Portugal e no Camboja.

E, de futuro, para onde vai?

O meu desejo será o de replicar o Projeto onde for útil e necessário sendo que a curto prazo pretendo começar na Índia e Marrocos.

TEACH How To Fish

teachhowtofish.wixsite.com/portugal

facebook.com/TEACHhowTOfish

Gustavo & Luka – Uma história de amor

Gustavo & Luka – Uma história de amor

O Gustavo é autista. A Luka não sabe. Sente, porém, quando algo de errado se passa com o seu amigo. Os afetos são um desafio diário na vida de Gustavo. A Luka contorna as dificuldades e faz ultrapassar barreiras. A Luka conheceu o Gustavo com um ano e meio. Não mais se largaram. “A Luka traz a magia do afeto e tudo o que ele contém: alegria, retribuição, brincadeira, atenção, proteção constante (ainda hoje ladra quando sente que algo não está bem). Foi ela quem despoletou o amor no peito do Gustavo, não fui eu, que sou mãe, não foi a avó, não foram as outras pessoas, não foram os nossos cães (um já partiu), foi ela e apenas ela”, refere a mãe, Maria Matos Pereira.

O Gustavo sobreviveu a um parto traumático. Grávida de 40 semanas, a mãe foi sujeita a um parto por ventosas, quando a opção mais viável seria a cesariana. “O Gustavo nasceu com inúmeras fraturas (fratura só plexo braquial direito, omoplata, clavícula, costelas, pneumotórax à nascença, enfim, muitos problemas). Não sabiam se sobrevivia. Sobreviveu. Esteve internado na neonatologia, durante os primeiros dias não lhe podia sequer tocar. Aos 15 dias de idade iniciou fisioterapia no hospital e desde então, descobriram-se muitos problemas mais. Aos 5 meses, tive a certeza de que o meu filho era diferente dos outros”, revela a mãe, acrescentando: “Não esqueço as palavras de um médico a olhar para mim enquanto eu chorava e implorava por uma verdade: “Tudo podia ter sido evitado. Lamento muito, lamento muito”. Era uma cesariana que poderia ter salvo tudo, mas optaram por este desfecho.”

Maria Matos Pereira colocou um processo em tribunal, que ganhou. Para trás, fica a luta. Pela frente, a certeza de que o espírito sai mais forte e de que a vitória se consegue nas pequenas batalhas. Pelo caminho, Luka faz esquecer as contrariedades e traz amor incondicional.

A mãe, em entrevista:

O autismo surgiu do parto traumático?

Acredito que foi. Não existem certezas, sendo que uma das possibilidades para o autismo é, efetivamente, um parto traumático.

Como foi o início da vossa história?

Tive uma gravidez normal, sem intercorrências. O parto foi induzido às 40 semanas + 5 dias e tudo correu mal. Foi um parto por ventosas, que deveria ter sido cesariana. O Gustavo nasceu com inúmeras fraturas (fratura só plexo braquial direito, omoplata, clavícula, costelas, pneumotórax à nascença, enfim, muitos problemas). Não sabiam se sobrevivia. Sobreviveu. Esteve internado na neonatologia, durante os primeiros dias não lhe podia sequer tocar. Aos 15 dias de idade iniciou fisioterapia no hospital e desde então, descobriram-se muitos problemas mais. Aos 5 meses, tive a certeza de que o meu filho era diferente dos outros. Após ler muito, percebi que teria um atraso de desenvolvimento. Com o passar dos anos, era isso que me diziam, que era um atraso global de desenvolvimento. Ele andou muito tarde, falou muito tarde (ainda tem um atraso grave na linguagem) também. Aos 3 anos – e já após ter consultado um psicólogo – tive a confirmação que era autista e que teria um caminho longo e duro pela frente, junto a ele. 

Que idade tinha o Gustavo quando recebeu o diagnóstico de Autismo?

Foi um processo duro, desde que nasceu. As dificuldades começaram desde o início, mas o diagnóstico confirmado de Autismo foi aos 3 anos.

Foi difícil, receber a notícia?

Não foi muito difícil porque eu já convivia com um atraso global de desenvolvimento da sua parte. Compreendi no primeiro suspiro dele (até porque teve um apgar 1/5/8 e eu sabia que algo iria ficar muito mal) que iria ter batalhas pela frente. Esta era apenas mais uma. Era ler, pesquisar, informar-me e tentar dar-lhe o melhor que pudesse para o ajudar.

Acredita que foi, de alguma forma, vítima de negligência médica?

Fui sim. Não esqueço as palavras de um médico a olhar para mim enquanto eu chorava e implorava por uma verdade: “Tudo podia ter sido evitado. Lamento muito, lamento muito”. Era uma cesariana que poderia ter salvo tudo, mas optaram por este desfecho.

Iniciou algum processo em tribunal?

Processei-os. O Gustavo ganhou o processo (a sentença saiu este ano). Ainda poderão vir a recorrer da sentença, mas, a meu ver, está ali um pedaço da sua história e do lutador e vencedor que ele é.

Como percebeu que o Gustavo tinha Autismo?

Logo nos primeiros meses de vida, assistia ao seu olhar apático, não ria, não se mexia, não balbuciava, não chorava (e quando o fazia, mesmo raramente, era o choro de gatinho), parecia um menino desprovido de alma, vazio… Com o passar do tempo, apercebi-me que ele não tolerava o meu toque, não queria carinho, não retribuía carinho, não me fixava, a dormir movimentava-se a embalar-se. Com 2 anos, agredia-se (tentava arranhar-se, puxava as pestanas, tentava aleijar-me, continuava sem me fixar nos olhos). Sentou-se sozinho muito tarde, até porque nasceu com hipotonia e era difícil manter a postura. Quando se sentava, eu tentava brincar com ele, mas rejeitava. Colocava os carros de brincar no chão, em fila, por cores, não havia um único fora do lugar; brincava com tudo o que girasse… Mas parecia que não gostava de mim e morávamos sozinhos… Senti-me desesperada nessa altura. Li muito, escrevia os sintomas nas pesquisas… Com os médicos, também falava, mas todos me diziam que “cada criança tinha o seu ritmo” o que, para mim, era descabido porque havia sintomas que não eram iguais aos “ritmos das crianças”, eram coisas diferentes e com as quais eu não estava a lidar bem.

Foi, entretanto, visto por um psicólogo privado que o analisou e que me falou, pela primeira vez, na hipótese de Autismo. Aconselhou-me ir a Coimbra para ser visto pelo Dr. Luís Borges (neuropediatra). Perto dos 3 anos, fui a uma consulta e, de facto, Autismo era mesmo uma grande hipótese. Já feitos os 3 anos, resolvi ter uma segunda opinião e dirigi-me à Clínica Diferenças. O Dr. Miguel Palha – nunca me esqueci – pegou numa flauta mal entrámos no consultório… Tocou para ele e em poucos segundos, diagnosticou-o. Ele não sabia por que motivo eu ia ali. Foi entrar e já está! Foi confirmado. Falámos sobre o futuro nessa consulta, tal como já havia falado com o Dr. Luís Borges, na altura. E foi assim… Um dia de cada vez, como se costuma dizer. Eu, ele, o autismo e os hospitais.

Porquê a interação com os cães?

Nós sempre tivemos cães. Ele nasceu já com cães de volta dele: 3 rafeirinhos, pequenos. Porém, não lhes ligava. Não se sentia estimulado ou entusiasmado com eles.

Porque decidiu aproximar o Gustavo de um amigo de 4 patas, então?

A Luka surgiu fruto de inúmeras pesquisas que fui fazendo pela internet. Com 1 ano e meio, o Gustavo não desenvolvia física/psicologicamente e eu ouvia que os animais eram um enorme suporte e incentivo para um potencial desenvolvimento, principalmente motor (ele não andava e eu estava muito preocupada com a hipotonia severa dele). E nós tínhamos cães em casa, mas pensei que, talvez por já terem uma certa idade ou talvez por serem de porte pequeno, não concretizavam o objetivo do estímulo. Resolvi que era altura do Gustavo ter uma cãopanheira que crescesse com ele, que fosse sua aliada desde nova.

Porquê um Golden Retriever?

No início, pensei nos labradores porque ouvia que eram cães muito bons para as crianças, que eram companheiros e que eram um grande apoio no seu desenvolvimento. Porém, como eram tão brincalhões, poderiam aleijar sem querer, por serem possantes. O Gustavo era um menino muito frágil, que receava que algo pudesse acontecer, mesmo que intencionalmente. Então, pesquisei por Golden Retriever e eis que fez o click! Eram descritos como meigos, afetuosos, protetores e leais. Era tudo o que ele precisava e, talvez por ser de grande porte, o Gustavo aceitasse melhor.

Como surgiu, então, a Luka na vida do Gustavo?

Como sempre adotámos cãezinhos, pensei que talvez conseguisse adotar uma, mas não consegui. Então, muito rapidamente comecei a pesquisar por criadores. Deparei-me com uma ninhada, nascida em junho de 2013, vi as fotografias e fui com o Gustavo até Torres Vedras. Era uma quinta enorme, com os pais à vista, com maternidade, com tudo o que um cão pode desejar e os olhos de quem os deseja pode admirar. Da ninhada, haviam 2 (um macho e uma fêmea). Confesso que fiquei com o olhar focado no macho, até porque ele se aproximou de imediato do Gustavo, mas não vi entusiasmo da parte do meu filho. Ele estava a fixar a cadelinha tímida que tinha ficado atrás do macho. O criador sugeriu a cadela porque seria ainda mais protetora e pediu-me que confiasse nele, até  porque ele tinha um filho com Necessidades Especiais e sabia do que falava. O Gustavo, assim que pegou nela (foi colocada no seu colo), não a largou mais. E ele que não suportava texturas (pelo) e não era nada de afetos. E foi assim que a Luka iniciou um novo ciclo ao lado do Gustavo.

De que forma beneficia o Gustavo dessa relação?

O Gustavo beneficiou com a companhia da Luka, no sentido em que: desenvolveu o gatinhar ao imitá-la, desenvolveu o afeto porque a aceitava, retribuía o carinho que ela lhe dava, fixava os olhos dela, acalmava com a sua companhia, brincava com ela, não era solitário. A marcha iniciou-se ao lado da Luka, entre brincadeiras. Desenvolveu a autonomia, no sentido em que, começou, mais tarde, a perceber que ela ia à rua, que tínhamos de lhe dar comida e água (ele ajudava), ia buscar os brinquedos dela para que ela brincasse com ele. As noites eram calmas, ela dormia no quarto dele. A Luka revelou-se um enorme apoio no desenvolvimento afetivo e motor do Gustavo.

Ele não suportava o toque de ninguém, mas suportava o toque da cãopanheira e, com o tempo, começou a aceitar o meu amor por ele, a  compreende-lo e a retribui-lo.

E a Luka?

A Luka ganhou uma autêntica família e um amigo a quem dava segurança, mas a quem ele também protegia. Ele não gostava que eu ralhasse com ela, por exemplo. Ela tornou-se a sua melhor amiga e ele o seu melhor amigo. Faziam tudo juntos. Nunca estive com ela numa escola de treino porque, felizmente, nunca foi preciso. Ela era obediente e muito meiga. Porém, se visse o Gustavo enrascado, fazia questão de me procurar e ladrava. Eu percebia que algo se passava. Sempre foi merecedora de lugar de destaque no nosso lar.

Não vivem um sem o outro?

Não. Mas o Gustavo, hoje, já tem 9 anos e as coisas mudam. Os interesses mudam, porém o afeto é sempre o mesmo. A Luka será sempre a sua primeira melhor amiga canina. Foram muitos anos em que era eu, ele e a Luka. Continuam muito chegados (nem quero pensar no dia em que a Luka partir!), muito companheiros. Hoje ela já tem mais uma “amiga”, a Sofia que vai fazer 2 anos de idade e que também adora a cãopanheira. A ligação da Luka com o Gustavo será para sempre e sei que, um dia, ele irá sofrer demais com a sua partida.

Que vantagens traz a Luka à vida do Gustavo que outros cães, outras terapias ou mesmo pessoas não trazem?

A Luka traz a magia do afeto e tudo o que ele contém: alegria, retribuição, brincadeira, atenção, proteção constante (ainda hoje ladra quando sente que algo não está bem). Foi ela quem despoletou o amor no peito do Gustavo, não fui eu, que sou mãe, não foi a avó, não foram as outras pessoas, não foram os nossos cães (um também já partiu), foi ela e apenas ela. São uma raça adorável, que parece entender tudo o que está à sua volta. A Luka parecia entender o que o Gustavo queria e o que ele precisava. Os nossos outros cães, não paravam a olhar para ele, só queriam brincar, correr, saltar. A Luka não, a Luka “ouvia” os olhos do Gustavo, ela percebia o que o olhar dele queria dizer. Ainda hoje, é assim (já não só com ele, com a Sofia também).

A Luka é muito protetora?

Muito. É a cãopanheira do afeto e da proteção. Se tiver o focinho em cima do pé do Gustavo, percebe que “está tudo bem”, mas se ele se levanta ou qualquer um de nós, levanta-se também para ver o que se passa ou se se passa algo. Hoje, com a nossa Sofia, é muito semelhante ao que era quando o Gustavo também era pequenino. Está sempre atenta.

Acha que o Gustavo evolui mais por a ter na sua vida?

O Gustavo, sem dúvidas, evoluiu bastante com a companhia e o apoio incondicional da Luka.

Como são os vossos dias? Difíceis?

Os nossos dias, atualmente, são menos difíceis e mais normais. No passado, foram muito duros, era só eu, o Gustavo e a Luka. ‘Vivíamos’ no hospital (fisioterapia, consultas, exames) porque não existia apenas o Autismo… O Gustavo tem vários problemas de saúde e é seguido em várias especialidades.

Porém, em 2017, reconstruímos um novo lar, uma família que se estruturou e que, felizmente, agilizou e suavizou todo o antigo percurso. A irmã também ajudou muito a que os dias se tornassem muito mais alegres na vida do irmão e nos nossos, claro.

Há algum tipo de apoio que o Estado proporcione, por exemplo, com terapias?

Aos 3 anos, o Gustavo foi sinalizado no Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância, tendo começado com o apoio da ELI (equipa de intervenção local) e, assim, até aos 7 anos, o Gustavo teve terapia da fala (uma vez por semana, durante 45minutos). Deixou de ter direito. Nunca mais teve direito a nenhuma terapia, foi sempre tudo no privado e pago por mim. Tem direito a uma bonificação por deficiência que não chega a 100 euros. São esses os apoios que o Estado lhe dá.

É difícil ser mãe de um filho autista? Porquê?

Já foi muito, mas muito difícil, não vou mentir. Passei dias de angústia, de muita dor e incertezas. Mas, tivemos a sorte de, ao longo dos anos, o Gustavo evoluir tanto que transformou toda a dor em apenas amor. Hoje é das crianças mais meigas e preocupadas que conheço. Há dias em que o ouvir chamar-me 10 vezes seguidas é desconfortável, mas eu abstraio. Tendo alimentação seletiva, também torna a situação um bocadinho mais complicada, mas aí, todos os créditos vão para o meu marido (padrasto do Gustavo) que o ajudou muito, mas mesmo muito nessa questão, fazendo com que ultrapassasse muitas barreiras alimentares.

Há dias em que choro muito e há dias em que nem sei o que são lágrimas. Há alturas em que saio de uma consulta de coração arrasado, mas ele dá-me um abraço e diz-me “mãe, vai tudo correr bem” e eu ganho forças para muito tempo.

Existem dias em que me custa imaginar o futuro, as suas fragilidades, como será…

O Gustavo sofreu bullying e é um fator que me preocupa todos os dias… Porque ele não se sabe defender, não se expressa bem, é muito reservado, camufla muito os sentimentos… Isso sim, torna tudo difícil.

A companhia da Luka torna as coisas mais fáceis?

A Luka é a brincalhona da casa que acaba por nos fazer abstrair e consolar de algumas situações. 

Aconselho que, quem possa, tenha uma cãopanheira porque fará um lar muito, mas muito mais feliz!

Vontade de vencer

Vontade de vencer

No Kikolo, uma cidade e comunidade angolana que se localiza na província de Luanda, pertencente ao município de Cacuaco, a vontade de ultrapassar obstáculos supera as dificuldades que traz a deficiência.

A deficiência motora causada pela poliomielite não os impede de exercerem uma atividade profissional e de se sentirem parte integrante de um projeto e de uma sociedade.

Decorria o ano de 2011 quando Virgínia Romão, um dos membros de uma ONG chamada Grupo Amizade em Angola, conheceu um grupo de jovens com deficiência motora e prometeu ajudá-los, elaborando um plano que lhes permitisse criar uma atividade como artesãos. Prestou-lhes, então, ajuda na aquisição de materiais e ao nível da formação. Estes jovens aprenderam, então, em regime de voluntariado, técnicas de pintura, colagem, utilização de papel maché e reciclagem de papel.

Nasceu, assim, o Grupo de Artesanato das Galinhas de Kikolo, imagem de marca da comunidade. Mas este grupo de jovens faz, na verdade, mais do que galinhas… Embondeiros, peixes e tartarugas são outras das peças que ganham forma nas suas mãos. As peças são, habitualmente, vendidas em feiras e lojas de artesanato na zona de Luanda, bem como em algumas exposições para as quais são convidados. Marcam, ainda, presença internacional com exposições como foi o caso da Expo 2015, em Milão, onde estiveram representadas.

Grupo de Artesanato das Galinhas de Kikolo

Zinha Carmo, Vice-presidente do Grupo Amizade em Angola em entrevista:

Como surgiu este projeto e porquê?

Em 2011, com um grupo de jovens artesãos angolanos, que vive numa zona muito pobre. Todos sofrem de deficiência motora (sendo a maioria vitimas de poliomoelite). O Grupo Amizade em Angola apoiou estes jovens de forma a habilitá-los com uma ferramenta de trabalho e alguma independência económica. O espaço de trabalho foi adaptado e reformado de acordo com as suas necessidades. Foram substituídas as  cadeiras de rodas.

Como funciona o projeto? Que ajuda prestam, em específico?

De momento estão praticamente autónomos! Contudo, recebem ajuda na área da formação, organização do trabalho, material para execução dos trabalhos e divulgação das suas obras.

Quais são os principais desafios e dificuldades que o Grupo Amizade Angola enfrenta?

Com o material de trabalho para execução das obras, papel reciclado, colas e tintas, por exemplo.

Tem algum tipo de apoio exterior? Como funcionam os apoios?

Temos a divulgação das necessidades nos nossos grupos e a contribuição de amigos e voluntários.

Que tipo de deficiência têm estes jovens?

Têm deficiência motora.

Estes jovens evoluíram? Foi benéfico para eles, pessoalmente?

Evoluíram a nível pessoal e profissional! Têm hoje mais confiança em si próprios! 

Onde são vendidos estes produtos?

Em feiras e lojas de artesanato.

Acredita que, de alguma forma, deveriam existir mais iniciativas destas em termos mundiais? O mundo seria um lugar melhor?

Certamente! A inclusão social e a habilitação de ferramentas para poderem ser autónomos e se sentirem realizados é fundamental!

Acha que estes jovens são mais felizes hoje? Sentem-se mais integrados em sociedade?

Absolutamente! Têm um modo de vida e são convidados para feiras e eventos para exporem as suas obras. E isso é fantástico.

O design ao serviço da comunidade

O design ao serviço da comunidade

Monica Rosenzweig é designer e mora em Portugal há dois anos. Natural do Rio de Janeiro, foi na pacata vila de Cascais que decidiu estabelecer-se. Isolada em casa há mais de 40 dias, encontrou na criação de novas peças uma forma de manter a mente saudável.

Fazer algo para ajudar quem está na linha da frente do combate à pandemia foi a solução que encontrou para não se isolar demasiado. Escolheu tecidos de seu acervo pessoal para fazer máscaras e distribuiu-as gratuitamente entre esses grupos.

Além da doação para quem precisa, faz, também, a venda com um objetivo nobre: usar 100% do valor obtido para doar a projetos sociais do Brasil e de Portugal durante a pandemia. Além disso, decidiu partilhar, ainda, o molde e as informações para quem quiser criar máscaras em qualquer lugar do mundo!

A designer em entrevista.

Como surgiu esta ideia solidária e porquê?

Houve um dia, em que eu esteva a ver televisão em casa, uma reportagem sobre as pessoas sem abrigo. E uma senhora, ao terminar a entrevista, disse: “quem diria que um dia iria eu ia morar na rua ?”. Aquilo mexeu comigo no fundo da minha alma! Ninguém mora na rua porque quer. É porque não tem outra opção. E coloquei-me no lugar daquela mulher. E se fosse comigo? Naquele momento, já tinha decidido que tinha de fazer alguma coisa por aquelas pessoas. E quando decido, decido de verdade! Esta questão das máscaras não é a primeira ação solidária em que participo. Faço parte de outro grupo que distribui alimentos a quem necessita.

Sente que, numa altura de crise, nos devíamos todos ajudar uns aos outros mais?

Estamos a passar por um momento em que temos de ajudar o próximo. Estamos todos tão vulneráveis, tão expostos, que temos que nos unir.

Sempre se considerou uma pessoa solidária?

Eu sempre fui solidária. Os meus pais foram o meu exemplo, a filantropia sempre fez parte da nossa vida. O meu pai, inclusive por ser um sobrevivente do Holocausto, sabia o quanto era importante ser solidário. E sempre ensinou isso a toda a família.

O que faz, profissionalmente?

Tenho formação académica em Desenho Industrial. Sou uma artista, gosto de criar. E quando fiz uma especialização de design de jóias, mergulhei de cabeça. É o que faço desde então.

Como acha que o Brasil está a lidar com a pandemia?

Acho que o Brasil está a lidar mal com a pandemia. Enquanto todos os países do mundo se estão a unir para combater um inimigo comum, o Brasil parece estar em contra-mão. E como é um país muito grande, é preciso uma força tarefa extremamente organizada, comprometida e, ainda mais importante, com um discurso único do que deve ser passado para a população. E nada disso estou a ver, até agora. Não há um alinhamento que venha de cima, que seja replicado igualmente por estados e municípios. E isso está a deixar a população muito desorientada. Mas é importante dizer que o Brasil já estava a passar por incertezas políticas , económicas e ao nível de saúde, muito antes do início da pandemia, infelizmente.

E Portugal?

Portugal tem sido um exemplo enquanto país na eficiência para deter a pandemia. Fechou a fronteira com a Espanha, fechou os aeroportos e decretou a quarentena em tempo hábil para proteger os cidadãos. Aqui há uma preocupação real em proteger as pessoas. Existe uma união incrível. Além de ser um país pequeno, o que torna esse controle ainda mais eficiente.

Gosta de viver em Portugal?

Eu adoro viver em Portugal. Sinto-me, realmente, parte do país. Sou apaixonada pelas suas belezas naturais e a forma como está a conduzir essa situação fez-me sentir ainda mais integrada.

Do que mais gosta no nosso país?

Aqui há muita segurança, o que nos permite ter uma boa qualidade de vida. Isto, sem mencionar a gastronomia, os vinhos e, claro, as pessoas, que são sempre tão gentis e receptivas.

Do que mais gosta de fazer em Portugal?

Viajar por Portugal, é lindíssimo!

Do que sente saudades no Brasil?

Sinto saudades das minhas irmãs, que lá moram. E outra grande falta que eu sinto é do meu canto predileto no Rio do Janeiro: o Arpoador. Sinto falta da água de coco e de biscoito Globo.

Como acha que o Brasil vai ficar depois desta pandemia?

É difícil tentar prever como será o futuro do Brasil. Dizem que Deus é brasileiro e, se realmente for, tenho esperanças de que tudo volte ao normal, rapidamente. Mas, sinceramente, o que mais espero é que esse problema tão grande que todos estão a viver faça o meu país ficar melhor, com governantes e empresários que ajudem, especialmente, o povo, tão sofrido e sem atenção, que lá vive.

E o mundo?

Nada será como dantes, mas temos de ver daqui para a frente. Acho que este vírus vai deixar uma grande cicatriz no mundo, mas também poderá significar uma mudança para o nosso futuro. Devido ao confinamento que estamos a viver desde o começo da pandemia, passámos a respeitar a natureza e a preservá-la, mas essa nova atitude deve ser contínua. E espero que todos tenham mais empatia em relação aos animais, que haja mais respeito com todos os seres não humanos, que têm sido tão brutalizados nas últimas décadas. Não é possível aceitar os mercados de animais que existem, como o da China, onde, parece, tudo isto começou. Isto não pode mais ser tolerado! Os animais são inocentes e impotentes e a forma como são tratados tem que mudar, já.