Vamos sorrir?

Vamos sorrir?

A vida faz-se de percalços. Mas também de momentos bons que assumem, depois, um formato mais significativo, traduzindo-se em memórias que guardamos com carinho. De dias bons. De dias menos bons… De um somatório de vivências e de experiências.

Se um desconhecido lhe deixar um bilhete, num dia onde as razões para sorrir parecem ter desaparecido… Vê? Guarda? Ou nem repara…?

A proposta é de Daniela Barreira e baseia-se numa premissa muito simples: “mudar o mundo de alguém, através de pedacinhos de amor escritos em post-its”, explica.

O projeto Tatuar Sorrisos nasceu em fevereiro de 2012, numa viagem de metro. “Lembro-me de começar a notar e a sentir aquilo de que se fala desde sempre, que é o facto de andarmos, tantas vezes, fechados na correria dos nossos dias e da nossa vida. De olhos fixos no chão, no vazio. Sem olhar as pessoas com quem nos cruzamos todos os dias. Sem reparar no que nos rodeia. E em quem nos rodeia. Lembro-me de, num desses dias, me questionar: “E se… Se houvesse aqui alguma coisa diferente… alguma coisa, por mais pequenina que fosse, que estivesse aqui a mudar o cenário habitual de todos os dias… Será que alguém repararia? Será que cativaria o olhar, a atenção, o coração de alguém? E se?” E apeteceu-me experimentar”, diz a mentora. Experimentou e não mais parou!

Daniela Barreira, em entrevista.

Como nasceu o projeto Tatuar Sorrisos e porquê?

O Tatuar Sorrisos nasceu em fevereiro de 2012, numa das minhas viagens diárias de metro para a faculdade. Lembro-me de começar a notar e a sentir aquilo de que se fala desde sempre, que é o facto de andarmos, tantas vezes, fechados na correria dos nossos dias e da nossa vida. De olhos fixos no chão, no vazio. Sem olhar as pessoas com quem nos cruzamos todos os dias. Sem reparar no que nos rodeia. E em quem nos rodeia. Lembro-me de, num desses dias, me questionar: “E se… Se houvesse aqui alguma coisa diferente… alguma coisa, por mais pequenina que fosse, que estivesse aqui a mudar o cenário habitual de todos os dias… Será que alguém repararia? Será que cativaria o olhar, a atenção, o coração de alguém? E se?” E apeteceu-me experimentar. Foi assim que começou.

Comecei, um dia, a deixar pedacinhos de amor por aí, escritos em post-its. E hoje, anos depois, este bloco de post-its escritos com o coração, ao qual dei o nome de Tatuar Sorrisos, já faz parte dos meus dias, dos meus lugares e das minhas pessoas. Já faz parte do que sou.

Porquê? Por acreditar que o amor muda o mundo. Por acreditar que um pedacinho de amor, mesmo o mais pequenino, muda o mundo. Pela minha vontade de viver e ser isto. Todos os dias. E de o mostrar às pessoas, fazendo-as sentir isso e vivê-lo, também. Mudando o mundo de alguém, tatuando um sorriso no dia de alguém, na vida de alguém, no coração de alguém.

Sente-o como uma ‘missão’?

O Tatuar Sorrisos tem como missão “tatuar sorrisos no dia de alguém, na vida de alguém, no coração de alguém”. Mudar o mundo de alguém, através de pedacinhos de amor escritos em post-its. Com esta forma tão simples, se isto realmente tocar alguém, se, no meio das mil pessoas a quem não muda nada, existir pelo menos alguém a quem mude alguma coisa… eu não poderia escolher missão mais bonita para mim. Algo que espelhasse melhor aquilo que eu sou e aquilo em que eu acredito. Por isso, posso dizer que sim, que o sinto como uma missão.

Acredita que as pessoas hoje não são tão felizes, de alguma maneira? Que vivem mais preocupadas ou stressadas?

Posso arriscar dizer que talvez haja pessoas que nem se apercebem do tanto que têm para ser felizes. Vivemos preocupados e stressados, sim. E, ainda mais do que isso, vivemos em correria. Vivemos, todos os dias, a correr mais depressa do que o tempo. Sem tempo para parar. Para demorar. E, lá está, sem tempo para reparar. No que nos rodeia, em quem nos rodeia e no tanto que temos, todos os dias. Esquecemo-nos de parar e de demorar num abraço mais forte. Esquecemo-nos de parar e de demorar num entrelaçar de mãos mais seguro. Esquecemo-nos de parar e de demorar num cruzar de olhares mais fundo. Esquecemo-nos de parar e de demorar num sorriso mais cúmplice. Esquecemo-nos de parar e de demorar num beijo mais longo. Esquecemo-nos de parar e de demorar nas pessoas que são nossas, nas pessoas de quem nós somos. Esquecemo-nos que não há correria nenhuma que compense o amor a acontecer. E, sobretudo, esquecemo-nos, muitas vezes, do que importa de verdade. Que é isto que importa de verdade. Estes pequenos nadas, que temos todos os dias, e que são tudo. Tudo o que importa para sermos mesmo felizes.

A pandemia veio agravar isso?

Não sei… Acho que já éramos assim antes. Há muito tempo. Acho que a pandemia pode ter agravado a preocupação e o stress, sim. Pelo medo que instalou. Pelo desconhecido que assusta. Pela distância a que obrigou. Por tudo o que trouxe. Mas também instalou a confusão, exatamente porque nos obrigou a abrandar um bocadinho. De repente, obrigou-nos a parar. A ficar. E parece que, de repente, ficámos sem saber muito bem onde morava o sentido de tudo. Porque, até então acreditámos, todos os dias, que o que fazia sentido era correr mais depressa do que o tempo. Sem ter tempo para parar. Para ficar. Para, simplesmente, estar.

É importante sorrirmos? Porquê?

É tão importante sorrirmos. Quantas vezes foi um sorriso que nos abraçou o coração? Quantas vezes foi um sorriso que nos tocou a alma? Quantas vezes foi um sorriso que nos mudou o dia? Quantas vezes foi um sorriso que nos salvou do dia? Quantas vezes? É tão importante sorrirmos. O nosso sorriso pode mesmo ser a melhor parte do dia de alguém. Tal como, muitas vezes, é a melhor parte do nosso dia. Quem diz um sorriso, diz um abraço, diz um gesto de amor. Mas sim, é tão importante sorrirmos.

Em que é que consiste o projeto, essencialmente?

O Tatuar Sorrisos consiste em deixar pedacinhos de amor por aí, escritos em post-its. São frases simples, que procuram ser expressão do quanto um gesto de amor pode mudar tudo. O Tatuar Sorrisos procura deixar um pedacinho de amor, de abraço, de sorriso, no dia de alguém, na vida de alguém, no coração de alguém. Escrito em post-its, deixados por aí. Começou no metro e depois passou a acompanhar-me sempre. Em espaços públicos, bancos de jardim, paragens de autocarro, onde for, por aí… Nunca mais me largou.

Acredita que, se todos déssemos um pouco mais de nós, o mundo seria um lugar diferente? Melhor?

Acredito muito nisso. Acredito em tatuar o mundo com amor. Acredito que, se todos fizéssemos um gesto pequenino de amor, no final, todos os gestos pequeninos juntos formariam um gesto gigante de amor. E, assim, o mundo só poderia ser um lugar diferente. E melhor.

Acredita que o amor pode mesmo mudar o mundo?

Acredito. Acredito que um abraço abriga. Acredito que as mãos dadas são força. Acredito que um olhar toca. Acredito que um sorriso dá vida. Acredito que um beijo cura. Acredito que o amor muda tudo. Acredito porque, no meio de tudo, só o amor é de acreditar. E, no meio de tudo, só o amor faz acreditar também. O amor acontece-nos todos os dias. E salva-nos de todos os dias.

A maior parte das pessoas não acredita? Porquê? Vivemos demasiado na ‘escuridão’?

Sei que há quem não acredite e não entenda. Sei que há, até, quem ache que acreditar é sinónimo de fragilidade, de ilusão. E, mesmo quem acredita, às vezes também duvida. Faz parte. Mas também sei que, quando duvidamos, há sempre um pedacinho de amor que chega para nos iluminar. Para nos despertar. Para nos fazer acreditar.

Ainda há muitas pessoas que acreditam. Mesmo que, às vezes, se esquecem. É por isso que é tão importante relembrar. Precisamos todos que um pedacinho de amor chegue, todos os dias, para nos iluminar. Para nos fazer acreditar. Para não nos deixar esquecer. Ou para nos relembrar, quando nos esquecemos.

Deixámos de acreditar, nós, adultos, que o mundo pode ser um lugar bonito?

Não sei se deixámos de acreditar… Porque há vezes em que nós vemos o mundo bonito. Nos momentos felizes, nos momentos em que temos e somos amor, geralmente vemos o mundo bonito. Nos momentos tristes, nos momentos em que nos falta amor, naturalmente não conseguimos ver o mundo bonito. Então, primeiro, talvez precisemos de aprender o que é que o mundo precisa para ser um lugar bonito. E, depois, talvez precisemos de sê-lo.

Deixámos a criança em nós ir embora, de certa forma…?

Muitos de nós, sim. Mas muitos de nós, ainda não. E ainda bem.

Tem tido um bom feedback do projeto?

Algum, sim.

No início, como tudo começou no metro, houve vezes em que tive a oportunidade de presenciar algumas reacções. Nessa altura, quando conseguia, colava um post-it junto à porta, logo ao entrar no metro, e depois tinha aquele tempo de viagem para poder ver o que acontecia. A maior parte das pessoas passava e não via. Não parava. Não reparava. Mas depois… Alguém que passava e via. Alguém que passava e via e parava para ler. Alguém que passava e via, parava para ler e sorria. Às vezes, uma ou outra fotografia. Outras vezes, levar o post-it consigo. E era aqui que eu sentia a magia a acontecer.

Agora já não é tanto assim e não tenho sempre feedback, porque a maior parte dos post-its são deixados de passagem, em diversos lugares, e depois não sei quem se cruza com eles, quem vê, quem não vê, e o que acontece a partir dali. Foi, também, por isso que criei a Página no Facebook. Para se alguém sentir essa vontade de dar feedback, de partilhar ou de conhecer mais, o possa fazer. Já recebi fotografias de quem encontrou. Já recebi mensagens a agradecer. Já houve, até, quem, mesmo nunca se tendo cruzado com um post-it, se tenha sentido tocada pelo projecto, a ponto de me enviar blocos de post-its, pelo correio, para que eles não me faltem.

E depois, claro, tenho as minhas pessoas, que acompanham de perto esta minha loucura bonita de “tatuar sorrisos” por aí, e a abraçam com a maior das ternuras.

O feedback que tenho tido tem sido sempre muito bonito. Tem-me abraçado sempre muito o coração.

Já mudou a vida de alguém que tenha conhecimento?

Há um momento que eu nunca esqueci. Foi há cerca de 2 anos. Foi no metro, mas desta vez não colei o post-it. Desta vez, ao contrário do habitual, entreguei-o em mãos. Eu cheguei e, no meio das pessoas que passavam, apressadas, vi-a. Ela estava sozinha, à minha frente e de costas para mim e, enquanto esperava, ia limpando as lágrimas que teimavam em cair. O metro chegou, entrámos e, durante a viagem, ela continuava a limpar as lágrimas. Quando a viagem chegou ao fim, saímos as duas e, ao sair, eu estendi-lhe um post-it. Ela hesitou, durante uns segundos, e depois aceitou-o. “O teu sorriso é a melhor parte do dia de alguém”, leu. Ela soltou um ligeiro sorriso. E eu segui o meu caminho de coração tão abraçado. Às vezes, um ligeiro sorriso de um coração que dói salva o nosso dia.

Eu não sei se mudou o dia ou a vida dela. Mas sei que mudou o meu dia. E tatuou a minha vida.

3 pensamentos sobre “Vamos sorrir?

  1. Tão bonito. Tão bom. Tão importante. Tão grandioso ❤️
    Obrigada, Daniela, por cada pedacinho de amor que dás ao mundo através de um post-it.

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  2. Excelente entrevista!! Parabéns Daniela por teres tomado esta iniciativa! Uma missão que mudará muitas vidas! Um gesto simples mas grandioso!! Parabéns!!! Espero um dia esbarrar-me com um post-it desses!

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